Até onde vamos chegar? A par da violência, que hoje ameaça qualquer um, principalmente no Brasil, o noticiário policial dos últimos dias tem sido pródigo ao relatar barbáries perpetradas contra pessoas indefesas. Depois da morte do garoto Bernardo Boldrini, drogado e morto pela própria madrasta (suspeita-se ainda da participação do pai e de uma amiga da principal acusada; os três foram indiciados ontem), no Rio Grande do Sul, mais três casos conseguiram uma grande repercussão, por causa dos detalhes sórdidos, estarrecedores e injustificáveis, embora não haja o que justifique qualquer tipo de violência.
Porém, em pelo menos dois dos últimos casos noticiados, as vítimas foram barbarizadas e trucidadas sem qualquer chance de se defender. É o caso da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33, agredida por dezenas de moradores de uma comunidade em Guarujá, no litoral do Estado. O motivo: um post em página da Internet onde um retrato falado (produzido há dois anos no Rio de Janeiro) alertava para uma mulher que estaria sequestrando crianças para utilizá-las em rituais de magia negra. Descobriu-se depois que o alerta era falso. Qual o crime de Fabiana? Ela ofereceu banana para uma criança e foi atacada por centenas de pessoas, agredida e morta. Bestamente.
Depois disso, veio a notícia do assassinato de uma manicure em Barueri, na Grande São Paulo: Ane Kelly Santos, 26, foi sequestrada, torturada por quatro pessoas e morta. O motivo: ela teria furtado R$ 27 mil de um bandido da vizinhança, segundo a Polícia Civil. Três pessoas foram presas, entre elas uma vizinha de Ane Kelly, que a acusou do furto. Qual o crime de Ane Kelly? Ter comprado recentemente uma televisão, o que seria prova de que ela roubara o dinheiro, segundo os envolvidos. Não havia prova e nem testemunhas do delito.
Pois ontem, foi noticiada uma ação ainda mais estarrecedora: na segunda-feira, dois irmãos, uma menina de 13 anos e um garoto de 9, morreram no incêndio da própria casa, provocado por um artesão de 21 anos (que os tinha amarrado no quarto), por causa de uma dívida que ele teria com o irmão mais velho dos dois. O caso aconteceu em Ceilândia, cidade satélite do Distrito Federal. O motivo, segundo o bárbaro assassino: uma dívida com peças de artesanato adquiridas no final de semana pelo irmão mais velho das crianças (leia a respeito na Página 2B). Qual o crime dos irmãos? Estarem em casa quando o marginal tentava levar notebook, tablet e máquina fotográfica como compensação da dívida do irmão mais velho.
Se as coisas continuarem assim, onde iremos parar? A uma era em que os bons valores são ignorados? Ou voltaremos aos tempos de barbárie, quando matar o semelhante era demonstração de virilidade e se alimentar dos despojos dos inimigos era normal? Diante de fatos como estes só podemos concluir que parece que a humanidade vem involuindo, mesmo diante da fantástica evolução do conhecimento que registramos ao longo dos séculos. Indignar-se é normal, mas já se percebe que casos como os citados começam a se tornar corriqueiros e refratários ao sofrimento de seu semelhante. É uma pena.
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