Três dos quatro médicos que atenderam a dona de casa Clésia de Araújo Novais, 36, no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” foram ouvidos pela CEI (Comissão Especial de Inquérito) aberta para apurar supostas irregularidades na Rede Municipal de Saúde. Clésia morreu no último dia 20 de fevereiro. Os médicos Paula Borges, Paulo Oliveira e Camilo Follis Santos afirmaram em seus depoimentos que discordam da decisão tomada pelo colega Vínio Cintra de Oliveira, último a atender a dona de casa, que deu alta à paciente e a mandou para casa.
Os três médicos foram ouvidos na última quinta-feira. Paula Borges foi a primeira a atender Clésia no PS, na noite do dia 15 de fevereiro. “O caso dela me chamou muito a atenção. Ela chegou se queixando de dores e de dificuldades para respirar. Pedi alguns exames e a coloquei na ala de observação. Depois de algum tempo, fui vê-la e o quadro tinha piorado. Ela dizia não sentir as pernas.”
Por conta da piora, Paula decidiu solicitar a internação da paciente na Santa Casa. “Eu suspeitei de problemas neurológicos graves. Pedi a vaga, mas não tive resposta até deixar o plantão, por volta das 23 horas.”
Paula soube dois dias depois, pela imprensa, que Clésia havia recebido alta, piorado e estava em coma no CTI (Centro de Terapia Intensiva) da Santa Casa. “Levei um susto. Vi que os médicos, ou melhor, um médico tinha dado alta. Mas ele não deveria. A Clésia era uma mulher ativa. Tinha uma vida normal e, de repente, apresentou paralisia. Isso não é comum. A gente não dá alta para uma paciente como ela. Como alguém manda uma mulher que não consegue ficar de pé embora para casa?”, questionou. Clésia morreu três dias depois de dar entrada no CTI.
Depois de Paula, ainda na mesma noite, o médico a assumir o caso foi Paulo Oliveira. Em depoimento à CEI, ele disse que chegou a acreditar que Clésia estivesse fingindo. “Eu até dei um calmante para que ela dormisse e acordasse depois sem a intenção de continuar a farsa. Mas durante o sono dela, percebi que realmente havia algo errado. Ela não se mexia.”
Assim que Clésia acordou, Paulo fez alguns testes de reflexo. “Ela não conseguia ter respostas satisfatórias. Então solicitei mais exames e mantive o pedido de internação. Acabei saindo antes que os resultados chegassem e passando o caso para o Camilo.”
Como Paula, ele também disse à CEI que o quadro de Clésia era grave. “Foi um caso atípico. Não sabíamos o que ela tinha exatamente, mas o quadro só piorava. Eu não teria dado alta, tanto que mantive o pedido de internação.”
Na madrugada, Camilo Follis assumiu o tratamento de Clésia. “Ela respirava com dificuldade, mas não precisou ser entubada. Continuava se queixando das dores e da falta de movimentos. Insisti para que a Santa Casa a recebesse, mas eles pediram novos exames. Fui embora às 7 horas e esses exames não haviam chegado. Ela também não apresentava nenhum sinal de melhora. Eu não daria alta”, disse ele durante depoimento.
Vínio Cintra de Oliveira foi o médico que, pela manhã, atendeu a dona de casa. De acordo com os familiares de Clésia, mesmo sem ela conseguir ficar de pé e ainda se queixando de dores, Vínio resolveu dar alta e mandá-la para casa com um pedido de encaminhamento ao neurologista.
Clésia foi para casa e não melhorou. Seu marido acionou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que disse não poder levá-la de volta ao PS. Sem outra alternativa, o marido decidiu buscar atendimento particular. “Foi lá na Unimed que eles disseram que minha mulher estava em choque. Ela tinha diabetes. A gente não sabia. Deram para ela glicose, o que agravou o quadro”, disse Willian Cabral Pinto. Clésia entrou em coma. Foi encaminhada para a Santa Casa e morreu três dias depois.
O médico Vínio Cintra de Oliveira deve depor nesta semana à CEI. Ontem, ele foi procurado e não quis dar entrevista. “Eles podem falar o que quiserem e vocês podem publicar o que quiserem que eu me defenderei judicialmente. Eu não converso com o Comércio da Franca.”
Outras investigações
Além da CEI, a morte de Clésia Novais é investigada também pela Polícia Civil, pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) e pela Prefeitura. Todas as investigações ainda não foram concluídas.
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