Parte do mundo passa fome, mas não apenas por falta de comida. Um terço da produção de alimentos no planeta é desperdiçado entre a colheita e a mesa do consumidor. Os dados foram divulgados na última semana pela consultora do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) Catalina Etcheverry, durante a feira Green Rio. Realizado todos os anos, o encontro reúne especialistas, empresários e interessados em alimentação orgânica. Durante participação na mesa Gestão Sustentável da Cadeia de Alimentos, a pesquisadora citou dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) que comprovam o nível do desperdício.
No Brasil, que é considerado o quarto maior produtor de alimentos do mundo, o estudo apontou desperdícios. Segundo Catalina, pelo menos 10% se perdem nas plantações. Do que sobra, 50% são perdidos na distribuição, no transporte e no abastecimento. E do restante, 40% se perdem na cadeia do consumo, como nas feiras livres. ‘Os países industrializados apresentam o maior desperdício, porque têm o hábito de inutilizar comida que pode ser consumida, só porque tem algum tipo de falha na aparência, como ocorre nos Estados Unidos e na Europa’, destaca Catalina.
Segundo a consultora da ONU, um dos grandes entraves para o melhor aproveitamento dos alimentos é a existência de leis, em vários países, que não permitem fazer doações de comida que sobra, ainda que em perfeitas condições de consumo. ‘A campanha visa a conscientizar a população em geral de que o desperdício alimentício é um problema global. Pequenas ações, em nível de governo, de empresas e do consumidor, podem diminuir essas perdas’, constatou.
Afinal, são toneladas de alimentos que vão diariamente para o lixo, mesmo que ainda estejam bons para o consumo. As leis brasileiras não permitem que restaurantes doem a comida que sobra no almoço ou jantar a entidades assistenciais. Um desperdício que poderia estar melhorando a ração diária de crianças carentes em instituições como creches. Além disso, a falta de infraestrutura no transporte, responsável pela perda de quase metade de tudo o que é produzido pelo setor agrícola brasileiro, também pesa negativamente nesta conta.
O brasileiro ainda não entendeu que ações simples podem reverter este quadro. E tudo passa por vontade política. Não adianta dar condições de acesso à melhoria da qualidade de alimentação, através de programas sociais, se por causa do desperdício o produto agrícola (aí englobados grãos, legumes, verduras e carnes) torna-se mais caro. A melhoria da logística de transporte é primordial: perdas menores significam mais produtos no mercado e preço menor. Simples assim. Além disso, a distribuição de alimentos (inclusive os já processados em restaurantes e refeitórios industriais) poderia causar uma verdadeira revolução junto às populações carentes. É preciso que se olhe esta questão com bastante atenção, se quisermos realmente acabar com a fome e a miséria em nosso País. Começando por aqui, quem sabe não surjamos como exemplo ao mundo?
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