A CEI (Comissão Especial de Inquérito) da Saúde ouviu ontem os médicos Paula Borges Santos, Paulo Oliveira e Camilo Follis Santos. Em três horas de depoimentos na Câmara, eles revelaram detalhes do caos que impera na Saúde Pública de Franca. Médicos do Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, os três narraram como funciona o esquema de horas extras ilegais pagas aos profissionais, descreveram a dura rotina que enfrentam no maior pronto-socorro da região, desmentiram autoridades e denunciaram a demora injustificada da Santa Casa de Franca em aceitar pedidos de internações.
Médica da Prefeitura desde 2007, Paula Borges foi a primeira a depor. Ela afirmou que por diversas vezes já esteve sozinha nos plantões do PS fazendo os atendimentos. “Eu já atendi 12 horas seguidas sozinha no plantão. É muito desgastante. Vocês não têm ideia do que é o pronto-socorro lotado e só você lá. A carência de médicos é total ali. Isso gera uma espera por atendimento absurda. A demora é tanta que até quem está em estado grave ou precisando de cuidados não aguenta: 30% deles desistem. Assinam o termo de responsabilidade e vão embora cansados de esperar.”
Ao contrário do que é dito pelas autoridades de Saúde, a médica disse que o atendimento no PS não é feito por seis ou sete médicos. “Na verdade, o normal é ter três médicos: um na ala para casos graves e dois atendendo. O ideal seria que tivéssemos 12.”
Como a demanda é grande, a espera e a irritação dos pacientes são rotina. “Um pronto-socorro que atende mil pacientes por dia com apenas três médicos é claro que vai dar problema. Qualquer hora vai ter quebra-quebra mesmo. A população se revolta. E eu compreendo isso.”
‘Pirraça’ na Santa Casa
Paula Borges ainda denunciou a dificuldade enfrentada pelos médicos para conseguir uma vaga de internação na Santa Casa. “É um absurdo. Primeiro temos que pedir para a regulação, que demora horas para responder, pede novos exames, discute diagnósticos e, às vezes, a situação é gravíssima. Não temos como ficar conversando, porque a diferença entre a vida e a morte do paciente pode ser questão de um minuto.”
Por conta disso, não são raras as vezes em que os médicos do PS decidem levar os pacientes diretamente para a Santa Casa. “Toda semana preciso fazer isso e sou ofendida. Alguns médicos da Santa Casa chegam até a xingar a gente. Falam que não vão aceitar, que a gente não sabe o que é medicina. Mas como eles são obrigados por lei a prestar socorro, então, eu nem ligo. Vou lá mesmo. Cumpro minha parte.”
Paula ainda acusa parte dos médicos da Santa Casa de dificultar a entrada de pacientes sem justificativa. “Eles (os médicos) fazem pirraça. Eles se sentem agredidos só porque decidimos não passar pela regulação. Então, simplesmente, enrolam, demoram para aceitar o paciente.”
Espera inevitável
As afirmações dela são confirmadas por Paulo Oliveira, médico que também trabalha no PS “Álvaro Azzuz”. “Não são todos os médicos que fazem isso, mas é comum termos problemas para internar. Muitas vezes, temos que ligar diretamente para o profissional da Santa Casa e discutir.”
Paulo trabalha na rede municipal desde 2006. Em seu depoimento ontem, revelou que o esquema ilegal de pagamento de horas extras para os médicos continua em vigor. “Eu trabalho em dois sistemas: um é por carga horária, outro é por produção. No sistema de produção, a cada 50 pacientes que eu atendo, eu recebo o equivalente a 12 horas extras”, disse sem revelar valores.
Como sua colega de trabalho, Paulo também tem de lidar com a irritação dos pacientes. “Eu normalmente começo a atender às 19 horas e são pacientes que chegaram às 14, 15 horas.” Para ele, a demora é resultado da falta de médicos. “O PS funciona com três médicos. Às vezes, até dois. Cinco ou seis só mesmo em um dia bom.”
Segundo ele, mesmo quando a equipe médica é reforçada, os pacientes não escapam da espera. “Aí o gargalo passa a ser o setor de enfermagem, que não é suficiente para atender a demanda gerada pelo atendimento dos cinco médicos. Quando isso acontece, os pacientes têm que esperar para receber a medicação. Não tem jeito.”
O médico também disse que outro problema que agrava a situação dos pacientes é o fato de os exames laboratoriais serem feitos fora do PS, em um hospital particular. “Os exames são enviados apenas de duas em duas horas e levam de três a quatro horas para retornar. Assim, dificilmente o médico que pede o exame ainda está de plantão quando chega o resultado. Além disso, o paciente que precisa de exame depois que o carro saiu para ir ao hospital tem que esperar o próximo horário, ou seja, mais duas horas.”
Devassa na hora extra
Questionado pela presidente da CEI, vereadora Valéria Marson (PSDB) e pelo relator vereador Márcio do Flórida (PT), o médico disse que não há controle sobre o cumprimento da jornada de trabalho. “Não tem ninguém que confere nosso horário. O que há é um acompanhamento dos atendimentos que fazemos por meio das fichas dos pacientes.”
Ele confirmou que os médicos preenchem o ponto de trabalho com antecedência, em um único dia. “Uns 15 dias antes de fechar o pagamento, o diretor administrativo nos entrega a nossa folha de ponto para ser preenchida com os nossos horários. A gente preenche até o último dia do mês e devolve para ele.”
Camilo Follis deu detalhes de como funciona o esquema de pagamento por produção. Com dois vínculos de 20 horas, o médico deveria cumprir 40 horas semanais de trabalho, sem direito a horas extras, mas não é o que acontece. Ele afirmou que, oficialmente, sua jornada de trabalho são um plantão de 24 horas às segundas-feiras e outros dois de 12 horas às terças e quartas, mas, na realidade, seu trabalho é outro. “A pedido do diretor administrativo, eu trabalho por produção. Assim, atendendo 100 pacientes na segunda e cumpro minha jornada.”
Para isso, ele entra às 11 horas e sai por volta das 14 horas, depois retorna às 19 horas e atende até as 23 horas. Ainda faz um plantão por hora das 3 às 7 horas. Em vez das 24 horas, na prática, Camilo trabalha apenas 11.
Nos demais dias, o mesmo sistema funciona. Às terças, em vez de atender por 12 horas, ele trabalha apenas das 11 às 14 horas. Às quartas, trabalha no mesmo horário e ainda faz atendimento das 19 às 23 horas, pelas quais recebe horas extras.
Ao final da semana, das 40 horas que ele deveria ter trabalhado, Camilo afirma cumprir apenas 21 horas, sendo que quatro delas são pagas irregularmente como extras.
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