'Repórter' francana entrevista orquestrador de filmes de 007


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Maestro e compositor Nic Raine
Maestro e compositor Nic Raine

A francana Isabella Franchini Greb mora em Cingapura (no Sudeste Asiático) e está passeando uns dias em sua terra natal, visitando a família. A mestranda em RI (Relações Internacionais) pela USP é, também, a típica jornalista nata. Em qualquer lugar que esteja, gosta de observar a realidade do lugar, seus problemas, dilemas e soluções. Adora também conhecer personagens e contar histórias. Recentemente ela entrevistou o maestro e compositor Nic Raine, que foi orquestrador de filmes de 007, e hoje conta um pouco do que conversou com ele.

 

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James Bond e os plebeus no Royal Albert Hall
 
Nic Raine fala sobre a importância do cinema para a música erudita
 
Cordas, madeiras, metais, teclas e percussão. Todos os naipes da Royal Philarmonic Orchestra já estavam no palco, à espera do regente, Nic Raine.  A plateia aguardava ansiosa e barulhentamente o início do concerto. Nos 8 mil assentos do Royal Albert Hall, em Londres, viam-se rostos bastante diferentes daqueles dos habitués da casa. Raine não esperou que se cumprissem os protocolos nem que os celulares se calassem: agarrou a batuta e se lançou ao palco. O público foi ao êxtase quando os violinos entoaram as primeiras notas da música tema de James Bond.
 
Naquela tarde de outono, inaugurava-se a “Friendship Matinee”, uma inciativa destinada a levar as dádivas da música erudita às populações carentes, assistidas por projetos sociais, a uma barganha de 5 libras por pessoa. O repertório do concerto de abertura, um tributo a John Barry, fora escolhido a dedo. Maestro e compositor britânico, Barry foi, por mais de duas décadas, responsável por traduzir, melódica e harmonicamente, as façanhas do agente secreto 007 para o cinema – incluindo o imortal James Bond Theme. Ganhador de 5 Oscar de “melhor trilha sonora” – nenhum deles pelos 11 filmes de Bond que fez –, Barry compôs para outros clássicos da telona, como Dança dos Lobos e Chaplin.
 
Era a primeira vez que o inglês Nic Raine, regente principal da Orquestra Sinfônica da Cidade de Praga, conduziria a Royal Philarmonic. O convite foi motivado pelo fato de Nic ter orquestrado, por mais de 20 anos,  as composições de John Barry – dentre elas, dois 007: “Marcado para Morte” e “Na Mira dos Assassinos”. Orquestrador, maestro e compositor, Raine acredita piamente na importância do cinema para a promoção da música erudita em tempos de democracias laicas: “A indústria cinematográfica é a grande financiadora da música clássica nos nossos dias”, afirma o músico, justificando “antigamente, quem financiava os compositores era a corte ou o clero. Bach foi bancado pela igreja, Haydn compunha para a aristocracia. Hoje, o cinema faz esse papel”.
 
Embora os tempos não tenham sido de bonança, desde sempre, para os compositores eruditos – Mozart, que morreu na pobreza, que o diga – na era do capitalismo técnico-científico-informacional, as coisas ficaram um pouco mais árduas para aqueles que passam longe do relógio de ponto e dependem do sopro das Musas para ganhar a vida. É aí que entra Hollywood: se os ventos não estão para Mahler, eles certamente estão para os bilhões de dólares angariados pelas superproduções do cinema.
 
Nic Raine foi parar na telona por acaso. Sua inclinação para as artes aparecera desde cedo, influenciada pelos pais – sua mãe era artista plástica e seu pai, um militar amante do órgão. Como grande parte dos adolescentes ingleses da época, aprendeu a tocar guitarra com os Beatles. Da guitarra elétrica para o contrabaixo e para o piano foi um pulo. Logo depois, veio a graduação em música. Ele conta que, ao sentar no piano para tocar uma peça, era capaz de “ouvir” as cordas o acompanhando. Assim, foi nascendo o orquestrador, cujo trabalho, segundo o próprio Raine define, consiste em “colorir o quadro branco e preto que o compositor lhe entrega. Ele é o responsável por definir qual instrumento toca o quê na orquestra”, explica. Quando jovem, no caminho de casa para o trabalho, lia partituras como quem lê o caderno de esportes do jornal. Autodidata, aos poucos ganhou notoriedade como orquestrador.
 
Em meados da década de 1980, recebeu uma ligação de John Barry – este ouvira sobre os talentos de Raine e lhe convidava para almoçar. Os dois se encontraram em um tradicional restaurante em Covent Garden – o Rules. Barry perguntou o que Raine gostaria de beber. Acanhado, o jovem respondeu: “o mesmo que você”. Vieram dois whiskies duplos. O almoço durou até a noite, regrado a muitos drinks. Ao final do encontro, Barry se despediu dizendo: “Vou gostar de trabalhar com você. Você sabe beber”.
 
Além da parceria com John Barry no cinema, Nic Raine atuou como orquestrador em ramos pouco ortodoxos para os compositores mainstream – um exemplo é a indústria de vídeo games, nicho de mercado que fornece boas chances para jovens compositores que não desejam ter a mesma sorte que Mozart teve em vida. Raine ainda orquestrou dezenas de produções cinematográficas nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha, chegando a trabalhar com seu ídolo de adolescência, Paul McCartney, na produção Liverpool Oratorio.
 
Ao final daquela matinê no Royal Albert Hall, Nic Raine estava radiante. A plateia estava em polvorosa. O concerto fora um sucesso. Nic Raine não escondia sua satisfação: “Quando o concerto termina, muitas pessoas me procuram e me dizem: ‘É a primeira vez que assisti a uma orquestra ao vivo e foi uma experiência fantástica. Eu não sabia que algo assim existia’ ”.: “Quando as pessoas assistem a um filme e ouvem a música, elas não fazem ideia de como essa música é feita. Mas quando elas vêm ao concerto, para ouvir algo que já conhecem, e veem 80 pessoas no palco, assoprando, batendo, pressionando e puxando coisas, elas começam a ter ideia de como tudo isso é produzido. Elas se encantam e voltam” e completa: “Para mim, essa é a melhor parte”.
 
 
Isabella Franchini

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