Quem acompanha o noticiário diário de jornais, rádio e TV tem uma percepção de que entidades que se dizem defensoras dos direitos humanos, pelo menos aqui no Brasil, só aparecem em defesa de marginais. Afinal, não se vê qualquer ativista, seja ele de ONGs (Organizações Não-Governamentais) ou integrante de qualquer parlamento brasileiro (Congresso ou Assembleias Legislativas estaduais), a erguer a voz a favor de vítimas de verdadeiros monstros — alguns menores de idade — que agridem, torturam e matam por quase nada. Uma vida, muitas vezes, vale menos do que um celular ou um par de tênis.
A barbárie anda solta e defensores dos direitos humanos não mexeram uma palha quando da morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band, atingido por um rojão atirado durante manifestação no Rio de Janeiro. Muito pelo contrário: defenderam os dois suspeitos presos que acabaram confessando a ação que ceifou a vida de quem estava trabalhando. Também não se viu qualquer entidade do tipo aparecer para se indignar com a morte de policiais (civis e militares), assassinados a mando do crime organizado. E nem em relação às dezenas de vítimas diárias de assaltantes, estupradores e assassinos que matam indiscriminadamente. Aos familiares das vítimas — a não ser que o caso tenha grande repercussão na mídia e haja suspeitas de participação de agentes de segurança —, nenhuma palavra de consolo, nenhum alento, nenhum apoio sequer.
Tudo isso vem a propósito da presença de uma Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados que realizou anteontem uma visita ao presídio da Papuda, em Brasília, para ver as condições em que se encontra o ex-ministro e ex-deputado José Dirceu, encarcerado após ser condenado no processo do Mensalão. E os parlamentares — grande parte da chamada base aliada do governo, principalmente do PT —, garantem que o político (considerado pela Procuradoria-geral da República como chefe da quadrilha que operacionalizou o maior esquema de corrupção da História do País) não conta com nenhum privilégio dentro do presídio.
Porém, fica claro que a coisa não segue bem assim. Os deputados da oposição que também visitaram o ex-ministro afirmaram que ele tem uma cela privilegiada. Segundo relatos, o petista estava vendo o jogo de futebol entre Real Madrid e Bayern de Munique em uma TV de plasma quando os parlamentares chegaram. O local onde ele está preso teria chuveiro quente e um espaço bem maior que o de outros detentos. A deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) afirmou ter visitado outras celas no mesmo pavilhão, nas quais há superlotação. “É um horror. Gente empilhada, celas escuras, sem iluminação.” Mas os membros da comissão não viram isso. Só foram à Papuda para garantir à Justiça que Dirceu pode sair da cadeia para trabalhar. Não estenderam sua visita ao restante da penitenciária, onde os “presos comuns” não contam com privilégios e acabam amontoados em celas apertadas. Uma situação que rotineiramente é noticiada, em nível nacional, mas que dificilmente encontra quem se indigne e tente revertê-la.
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