Durante uma aula de educação física no dia 20 de março, o estudante Gabriel Soares Porto Andrade, de 12 anos, caiu sobre o próprio braço ao tentar defender um gol. Com fortes dores, o garoto telefonou para a mãe, a auxiliar administrativo Kelly Paula Soares, que deixou o expediente e foi correndo ao socorro do filho. O fato seria corriqueiro, caso não tivesse terminado em Boletim de Ocorrência, um mês depois.
De acordo com o documento, o clínico geral Élvio Antônio Pinotti Neto teria diagnosticado o que seria uma fratura óssea no cotovelo como “manha de menino” e enviado mãe e filho de volta para casa. “Eu ainda disse: ‘Não, doutor, mas meu filho está chorando de dor!’”, relembrou a auxiliar. Após voltar ao trabalho, Kelly conta ter recebido um segundo telefonema de Gabriel, reclamando ainda da dor. “Voltei com ele no (Pronto-socorro ‘Álvaro) Azzuz’ e era outro médico de plantão. Esse olhou o mesmo raio-X e disse que meu filho estava com uma fratura de extensão grave no cotovelo.” Ainda de acordo com Kelly, o segundo plantonista encaminhou o paciente para a Santa Casa, pois suspeitava de que o caso poderia ser cirúrgico. “Não precisou operar, mas agora, por dois anos, meu filho precisará de acompanhamento com o ortopedista, sem praticar esportes e/ou pegar peso.” O braço de Gabriel foi engessado e assim permanece até hoje.
Além do boletim de ocorrência, Kelly registrou uma queixa formal junto à Ouvidoria do Pronto-socorro. O protocolo indica que a resposta deveria ser dada no prazo de 30 dias, que se esgotou no último dia 20. Como o documento não chegou à casa da reclamante até o fechamento desta edição, a reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura que, embora não tenha se manifestado a respeito da suposta conduta do médico, afirmou estar apurando a denúncia, conforme a nota: “A reclamação foi feita através de contato telefônico no Serviço de Ouvidoria SUS da Secretaria de Saúde e encaminhada à Sindicância Interna para apuração dos fatos”. Procurado, o médico Élvio afirmou não se lembrar do episódio e disse não ter recebido nenhum comunicado da Ouvidoria da instituição.
Tratamento ríspido
Em suas queixas, formalizadas junto à Ouvidoria do Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” e Polícia Civil, a auxiliar disse ter sido destratada pelo profissional ao pedir um atestado para acompanhar o filho pelo resto do dia. “Ele disse que o pedido era um pretexto para não trabalhar. Quando eu disse que faria uma reclamação pela falta de respeito, ele respondeu: ‘Você pode reclamar onde quiser. E se quiser um lugar melhor, você paga’.”
Ainda de acordo com ela, as palavras a constrangeram, pois o atendimento teria ocorrido a portas abertas e as palavras ditas em volume suficiente para que os pacientes que estavam corredor pudessem ouvir. “Ele falou comigo de um modo estúpido. Quando ele disse ‘Você pode reclamar onde você quiser’, eu interpretei da seguinte forma: ‘por ele ser médico, tanto faz, não haverá punição alguma’.”
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