Amor pela vida e a alma pela profissão. É desta forma que Lázara Maria Bernardes Batista se dedica há quase duas décadas à Fundação Espírita “Allan Kardec”. Ela, que ingressou no hospital psiquiátrico como assistente social e atualmente é administradora hospitalar, recebeu o Comércio na manhã da última quinta-feira em uma das salas da fundação. Lázara falou sobre o hospital e a trajetória profissional de quem se dedica fazendo o que é deixado de lado pela maioria da sociedade.
Lázara adaptou sua rotina às necessidades do hospital. “Venho no hospital de madrugada e a hora que precisar. Meu marido brinca que eu deveria dormir aqui.” Como recompensa, ela ganha o carinho dos pacientes, demonstrado em momentos como quando, durante a entrevista, ela passou perto do quarto de uma moradora do hospital e a paciente disse: “Tenho esse espaço aqui graças a este anjinho aí”, disse, apontando Lázara.
Pelos extensos corredores do complexo hospitalar, Lázara caminha contando a história de cada canto, cada jardim e, principalmente, de cada paciente. Com propriedade ela sabe da idade às vontades dos atuais “moradores” do “Allan Kardec”.
Porque a senhora escolheu ser assistente social?
Escolhi porque minha mãe era uma pessoa muito empenhada com a sociedade. Morávamos na fazenda e ela fazia aquele tipo de assistência social, aquele estilo de mulher que cuidava das pessoas. Ela me ensinou e a meus irmãos o caminho da caridade. Somos seis irmãos, só eu sou assistente social, mas todos têm uma visão voltada para a filosofia da caridade. Quando foi a hora de escolher o curso, pensei que o serviço social combinava melhor com a minha cabeça.
Como foi o início da sua carreira?
Meu primeiro trabalho como assistente social foi na Prefeitura de Pedregulho. Passei no concurso, me classifiquei em segundo lugar e fui chamada. O prefeito me chamou e disse que precisava de uma pessoa forte porque estava tendo muitos problemas. Gostei do desafio. Trabalhei bastante e acredito que fiz um bom trabalho.
A senhora trabalha no ‘Allan Kardec’ há 20 anos. Como começou essa trajetória?
Foi um fato muito interessante. Ainda estava na Prefeitura de Pedregulho e vim trazer um paciente para a Santa Casa. Depois que encaminhei o paciente para atendimento, encontrei com duas amigas na pracinha do Itaú e elas me convidaram para fazer uma prova aqui no ‘Allan Kardec’. De início recusei, mas depois resolvi fazer. Fiquei encantada quando entrei aqui. Fiz uma prova escrita e entrevista. Passei e me disseram que poderia começar no outro dia, mas primeiro encerrei minhas atividades na Prefeitura de Pedregulho e comecei a trabalhar no dia 18 de novembro de 1994.
Qual a evolução do hospital ao longo destas duas décadas de trabalho da senhora?
Quando comecei a estrutura daqui era muito precária. Assumi a coordenação do serviço social com 120 dias de trabalho. Passaram-se mais 30 dias e me convidaram para coordenar também o projeto terapêutico, foi onde acumulei duas coordenações. Fizemos uma readequação do recursos humanos e depois da área física do hospital. Quando cheguei, as acomodações eram barracões enormes com banheiros do lado de fora. Isto me incomodou muito. Mandei chamar o arquiteto para fazer as mudanças nem que fosse para nós funcionários pagarmos e hoje, graças a Deus, todos os quartos têm banheiros, chuveiro quente e os leitos do SUS (Sistema Único de Saúde) estão brilhando, estão bem cuidados. Primeiro fizemos a ala do SUS e depois investimos no crescimento empresarial, porque o dinheiro que vem do SUS não dá para pagar as contas. Criamos a Clínica Nova Era (para atendimento a dependentes químicos e idosos) e partimos para este campo de particular e convênio. Criamos 70 leitos, sendo 20 femininos, 20 masculinos e 30 de geriatria.
O Hospital ‘Allan Kardec’ conta com 200 leitos destinados ao SUS. É histórica a dificuldade financeira enfrentada pelo hospital para conseguir atender os pacientes mais necessitados. Como é lidar com esta situação?
Nossa busca é primeiro com o município de Franca porque ele é nosso gestor. Não os culpo porque entendo que eles têm que seguir as leis federais que não sofreram mudanças. O valor da AIH (Autorização de Internação Hospital) continua R$ 42,37 e isto não dá para pagar as contas. Além da AIH, por exemplo, eles estão repassando o 13º salário todo ano e mais R$ 40 mil mensal que começou este ano. Não vai cobrir o nosso déficit, mas nos ajuda. Não posso deixar de falar também do povo francano. As pessoas talvez não conheçam isto, mas eles são muito solidários e fraternos. Se ligar na menor empresa da cidade para pedir alguma ajuda, eles mandam na hora. Distribuímos também os boletos na sociedade francana. Colocamos várias opções de valores e estamos satisfeitos com a quantidade arrecadada. Os francanos têm ajudado muito os pacientes mais necessitados com estes boletos. Dinheiro não se colhe em árvore, portanto temos que conseguir nos mecanismos sociais e nas políticas públicas, mas todo mundo sabe que não é fácil. Precisamos trilhar os caminhos para que possamos ter os recursos e lutar.
Qual é o tempo máximo de internação permitido para um paciente do SUS?
O tempo ideal seria 45 dias, mas como a nossa demanda é muito alta, geralmente vai de 21 a 25 dias. Atendemos 22 municípios, então temos que ter jogo de cintura. Há momentos que tiramos um paciente melhor para colocar um que está pior, mas às vezes colocamos três ou quatro pacientes a mais para não liberar aquele paciente que não tem condição de ter alta. Com o Hospital Dia nós tivemos um benefício muito grande, porque as vezes transferimos para lá um paciente que está quase bom e precisa de mais um tempo. Ele fica com a família, vem todo dia cedo e volta para casa à tarde.
Como a senhora disse, a demanda do ‘Allan Kardec’ é grande. Há casos crônicos que precisam com urgência de internação. Como o hospital age nestas situações?
Faço de tudo para internar de qualquer jeito. Coloco no leito filantrópico, pelo qual não recebemos nada, depois levamos para o Hospital Dia até ficar melhor e aprender a tomar remédio. As cidades que têm hospitais psiquiátricos, como Franca, têm um certo prejuízo porque a migração de outras cidades é muito grande. Temos dois leitos que deixamos para casos urgentes, mas são leitos filantrópicos. Estamos empenhados para colocar quatro leitos assim com o objetivo de receber estes pacientes doentes, esquizofrênicos que estão espancando os pais e outros casos.
Em 2012, o Comércio publicou a história de um jovem de 29 anos que vivia preso em um quarto em Franca porque agredia os familiares e a mãe não conseguia internação no hospital psiquiátrico. Como ajudá-las essas famílias?
Já que temos um hospital é necessário arregaçar as mangas. Não dá para simplesmente falar que não tem vagas e virar as costas. Não consigo nem dormir com uma situação desta. Tenho falado com os Crass (Centros de Referência em Assistência Social) para dar uma olhada nas periferias da cidade e ver os casos de sofrimento para podermos fazer um trabalho melhor.
O ‘Allan Kardec’ possui pacientes que moram aqui. Como é o tratamento dado a eles?
Atualmente, temos 80 pacientes-moradores. Estes são os que mais passeiam e mais têm regalias porque não possuem atendimento social lá fora. Eles estão sob a nossa responsabilidade em tudo. Fazem passeio de Natal, pulam o Carnaval. Eles estão muito envelhecidos e, às vezes nos deprimimos, porque alguns estão aqui há 40, 50 anos. Temos muito cuidado com eles. Eles são seres humanos como os outros e têm desejos como os outros.
O ‘Allan Kardec’ tem casos de pacientes-moradores que foram desinternados?
Assim que entrei na fundação desinternamos 16 pacientes-moradores. Eles voltaram para suas famílias, suas casas, mas já faz muito anos. Depois destes, há um ano e meio, desinternamos um senhor. Vamos lidando com as possibilidades. Nós olhamos bem a realidade e lidamos com as possibilidades que temos sem nenhum desânimo, com muita coragem e muita luta. A família tem que estar muito bem estruturada. Os pacientes-moradores que temos aqui hoje têm vínculos familiares muito frágeis. Não podemos levar um paciente acolhido como ele está aqui para uma periferia onde, às vezes, não tem nem uma cama. Não faço isso.
Em 2012, o ‘Allan Kardec’ foi obrigado a internar cinco adolescentes que sofreram surtos psicóticos, atendendo ordem da Justiça. Esta situacontinua acontecendo?
Isto não tem mais. Conversamos com o promotor que cuida das fundações e com o juiz. Não é que nós não queremos trabalhar com o menores de idade, a questão é que nós não temos áreas adequadas. O menor não pode ficar internado junto com o adulto, isto está no Estatuto da Criança e do Adolescente.
A Lei Antimanicomial, que previa a extinção dos manicômios e hospitais psiquiátricos, substituindo-os por outros tipos de tratamentos, é de 2001, mas esta mudança ainda não foi consolidada. Em 2012, a senhora declarou em entrevista que a lei não funcionava no momento porque estava fora da realidade brasileira. A senhora mantém a mesma opinião sobre a aplicação desta lei?
Continua a mesma. Ainda não é o momento porque não temos Capss (Centros de Atenção Psicossocial) em número suficiente. Todo mundo criticou, mas é uma lei maravilhosa só que não estão fazendo a aplicação dela de acordo, porque a proposta é a diminuição dos leitos psiquiátricos e aumento dos Capss nos municípios. Desta forma, os surtos leves poderiam ser tratados nos Capss e as questões patológicas seriam levadas para tratamento em internação. Só que faltam recursos para os municípios fazerem a aplicação de vários Capss. Franca precisa ter uns cinco centros bem montados para a lei funcionar.
Que história mais marcou a senhora nestes 20 anos de dedicação ao Hospital ‘Allan Kardec’?
Tem várias. Há pacientes e famílias que chegaram agressivos e voltaram para agradecer o que eles receberam de nós. Eles falam que há hospitais muito chiques no Brasil, mas não têm o calor humano que tem aqui. Tem um senhora que veio praticamente trazida pela polícia. Nós conversamos muito e expliquei que não podia trilhar os caminhos para ela, mas que podia ajudá-la a encontrar estes caminhos. Ela não esqueceu esta frase e voltou com o marido querendo abraçar todos nós. Foi muito gratificante.
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