O escritor Nelson Rodrigues, conhecido por sua mordacidade, declarou que “mulher gosta de apanhar”. Perguntaram-lhe, então:
-Todas as mulheres?
E ele , com sua habitual ironia, completou:
- Todas não. Só as normais.
Por outro lado, alguém mais civilizado e amoroso, afirmou que em mulher não se bate nem com uma flor.
Um instituto de pesquisas de opinião pública, órgão do governo federal , apresentou recentemente dados mostrando que mais de 60% dos brasileiros concordam que as mulheres que se vestem escandalosamente devem e podem ser estupradas. Mais recentemente ainda, o mesmo instituto reconheceu que havia errado na tabulação dos dados da pesquisa e que, na verdade, só 20% dos brasileiros concordavam com o estupro. Afinal, quem acredita nas pesquisas nacionais? Pairam sobre elas sempre um ar de dúvida, uma suspeita, uma desconfiança. O fato é que a pesquisa ganhou grande repercussão e, como soe acontecer, formaram-se grupos digladiantes. A maioria, a grande maioria, contra a violência, e a minoria a favor.
O prezado leitor há de convir que para mim é muito temeroso emitir uma opinião. Há mais de 30 anos que não vejo uma mulher escandalosamente vestida, semi-nua ou, mesmo, peladona. Se não me esqueci, a última vez que vi mulheres indecentemente vestidas foi na Praça Barão, há muitos anos atrás. Eram duas biscatinhas rebolantes que trajavam uns macacões sem nada por baixo e bem abertos nas laterais donde, volta e meia, brotavam os seios fartos das ninfetas escandalosas. Evidentemente, faziam propaganda de sua atividade e os assovios e olhares da Praça caíram em cima delas. É claro que elas não queriam ser estupradas. Queriam ser pagas e bem pagas.
Não há dúvidas, prezado leitor e leitora, que a mulher,quando quer provocar, provoca; quando quer seduzir, seduz; quando quer deixar o homem doido, deixa. Porém, mulher nenhuma quer ser estuprada. Aliás, estupro não é coisa de homem. Estupro é coisa de tarado. E o tarado ataca meninos, meninas, adolescentes, mulheres de todas as idades, independentemente de suas vestes. Tara é tara e algumas delas nem mesmo Freud explica.
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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