Prefeitura cancela parceria e tira professores e alunos do Jornal Escola


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Auditório estava praticamente vazio na primeira das oficinas deste ano
Auditório estava praticamente vazio na primeira das oficinas deste ano
Bastaram 40 dias para a Prefeitura de Franca mudar de ideia e encerrar a parceria de oito anos que garantia o acesso de professores e alunos a um dos programas educacionais de maior sucesso da rede municipal de ensino, o Jornal Escola. Sem qualquer aviso ou comunicado oficial, as mais de 40 escolas municipais inscritas no Jornal na Sala de Aula, organizado e oferecido gratuitamente pelo GCN, publica este Comércio, não participam mais do programa. Na primeira oficina que abriria os trabalhos deste ano, na noite de ontem, apenas três professoras da rede municipal compareceram. O auditório ficou praticamente vazio.
 
A única mensagem da Prefeitura chegou em forma de retorno a um telefonema dado pela coordenadora do Jornal Escola, Roberta Rubio Chagas. “A Secretaria Municipal de Educação é a responsável por comunicar aos professores a data das oficinas. Como até ontem (terça-feira) não havia nenhuma confirmação por parte da Prefeitura, resolvi ligar e fui informada do cancelamento.”
 
Segundo ela, a gestora de projetos e programas da pasta, Andrea Melo, disse que não era mais possível continuar a parceria com o jornal. “Ela contou que a decisão foi tomada durante uma reunião no gabinete e que o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) estava irredutível. Ela disse ainda que a conversa comigo era informal e que um comunicado oficial seria enviado para o jornal com a assinatura da secretária de Educação, Fabiana Sampaio.” Até a noite de ontem, nenhum comunicado oficial foi entregue ao GCN. 
 
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A primeira das 15 oficinas programadas foi realizada na noite de ontem. Das 41 professoras municipais esperadas, apenas três compareceram. Elas também não receberam nenhum convite ou informação por parte da Secretaria. Vieram porque decidiram ligar para o GCN pedindo informações. 
 
O cancelamento da parceria surpreendeu a direção do jornal. “Foram oito anos de trabalho conjunto e troca de experiências. Estou surpresa e chocada com esta decisão arbitrária do prefeito Alexandre Ferreira, que se mostra insensível, insensato e diria até insano. O Jornal Escola é um programa gratuito que existe há mais de 30 anos. A Prefeitura não gasta um centavo com a participação de seus professores e alunos. Alexandre Ferreira, que apenas está prefeito, pois o seu tempo no cargo é finito, esteve aqui no ano passado, reconheceu no seu discurso o valor do projeto, teceu elogios e agora esquece o que disse e atira contra algo importante para professores e alunos”, disse a idealizadora do programa e presidente do Conselho Consultivo do GCN, Sonia Machiavelli Corrêa Neves.
 
O Jornal Escola nasceu na década de 1980 (veja quadro nesta página). No ano passado, o próprio Alexandre Ferreira participou do lançamento do Jornal Escola e anunciou a inclusão do programa no planejamento pedagógico das escolas municipais. O programa também faz parte das atividades curriculares do ensino estadual.
 
No final de 2013, devido ao grande interesse dos professores em participar, a Secretaria Municipal de Educação pediu a ampliação do número de vagas. “Queriam que o programa atendesse também às unidades de Educação Infantil, por isso fizemos adaptações para responder à demanda desse novo público”, disse Roberta. O número de vagas  foi então ampliado. 
 
No lançamento da edição deste ano do programa, no dia 13 de março, a secretária de Educação, Fabiana Sampaio, fez um discurso elogiando o programa. “O Jornal Escola enriquece o repertório e o vocabulário das crianças, que têm contato com uma variedade de textos que estava esquecida pela rede pública e precisa ser retomada. O programa enriquece o dia-a-dia das escolas. É uma parceria muito positiva.”
 
No dia 26 do mesmo mês, a Secretaria convocou uma reunião para discutir o cronograma e o conteúdo das oficinas. Na ocasião, entregou ao GCN uma lista com os nomes e telefones dos professores participantes. “Em nenhum momento houve demonstração de que não havia interesse no programa. Muito pelo contrário. Discutiram ideias e pediram detalhes dos temas a serem debatidos”, disse Roberta Chagas, que participou da reunião. 
 
Ontem, depois da ausência dos professores, o Comércio tentou contato com a secretária, mas ela não atendeu às dezenas de ligações feitas para o seu celular entre as 19 e 22 horas. O assessor de Comunicação da Prefeitura, Marcelo Facuri, também não retornou as ligações.
 
Com a decisão de cancelar o programa, o prefeito suspende a distribuição gratuita de quase 200 mil exemplares por ano para as escolas participantes, proíbe a visita de alunos das escolas municipais à redação integrada do GCN e ainda tira dos professores a oportunidade de acesso a novas técnicas de linguagem e abordagem nas salas de aula. “Perdem os alunos, perdem os professores e, principalmente, perde a cidade”, disse Sonia Machiavelli, lembrando que a palestrante Ana Gabriela, jornalista e educomunicadora da ANJ (Associação Nacional de Jornais), presente no lançamento da edição 2014, afirmou em sua fala aos presentes no auditório “Jornalista Corrêa Neves” que tinha visto em todo o Brasil poucos projetos tão completos e abrangentes como o de Franca. 
 
O diretor executivo do GCN, Corrêa Neves Júnior, disse que os professores da rede municipal que quiserem continuar participando do programa, independentemente da decisão do prefeito, terão suas vagas preservadas. “Somos contra qualquer tipo de censura. Continuaremos aqui, de portas abertas, para os professores da rede municipal. O prefeito pode controlar a Secretaria da Educação, mas não é dono da rede pública de ensino e muito menos da vida dos professores. Todos que quiserem participar serão muito bem-vindos.”
 
O diretor fez questão de ressaltar que o GCN não recebe qualquer tipo de incentivo fiscal ou financeiro para oferecer o programa. “Fazemos isso por uma questão de princípios e ideais. Acreditamos na Educação, acreditamos que os professores podem mais. Uma pena que o prefeito não compartilhe dessa mesma visão.” 
 
Para a presidente do Conselho Consultivo, a decisão do prefeito é mais uma mostra da falta de apreço que Alexandre Ferreira tem pela Educação. “Com o cancelamento, o prefeito demonstra claramente que não tem respeito pela Educação Pública e não se interessa em formar cidadãos críticos”. 
 
 
O cancelamento não foi a primeira retaliação feita por Alexandre ao GCN. Em meados do ano passado, ele já havia cancelado a assinatura do jornal feita por repartições municipais e proibido professores ligados à Prefeitura de trabalharem nos projetos da Academia de Artes, ONG mantida pelo GCN com a ajuda de seus funcionários. 
 
Com a proibição da participação das escolas municipais de Franca, o GCN começará ainda nesta semana a convocar unidades educacionais que estavam na lista de espera do projeto. “O prefeito não destruirá um programa que tem 20 anos de história. Ele deveria saber que o governo dele cedo ou tarde passa. O GCN ficará. São quase 100 anos acompanhando Franca”, ressaltou Sonia.
 
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