Fogo na bandeira


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Cena 1 — Passeata contra a Copa. Alguém decide queimar a bandeira do Brasil. A foto circula. No Facebook, considero estupidez de quem confunde “nação” com “governo”. A maioria concorda, mas, 30% argumentam: “melhor queimar a bandeira do que quebrar um banco”, “queimar a bandeira não agride ninguém”, “é apenas um ato simbólico”, “aquilo é só um pano pintado”... 
 
Cena 2: Formatura da minha filha. Chega o momento do juramento. Um formando vai ao púlpito e lê, frase por frase. A turma que representa, em pé, braço direito levantado, repete. Na terceira turma, o representante lê, displicentemente, de uma vez só, e espera que repitam. Todos caem na risada. O sub-reitor vai ao púlpito e, severamente, diz: “Este juramento é compromisso ético com carreira e futuro! Levem a sério. É um dos momentos mais importantes de suas vidas.” Silêncio de perplexidade, mas, continuou. 
 
Fomos comemorar. Eu era o mais velho à mesa. Alguém lembrou o sub-reitor: “Onde já se viu? Estávamos em festa!” Eu disse que ele estava certo, que era solenidade, que a zona indicava que não estavam nem aí com compromissos. Quase fui expulso sob acusação de “velho”, “ultrapassado”. 
 
As cenas lidam com conceito de mitos e ritos, do solene, de valores morais na forma de símbolos que a sociedade cria para definir o que é bom, o que é ruim. Mas há o ‘relativismo’: a bandeira é símbolo da pátria, despertando respeito, pertencimento e orgulho, mas pode ser também um ‘pano pintado’. O juramento pode ser definição de valores a guiar comportamento ético, ou, amontoado de frases velhas que têm que ser esculhambadas. A facilidade com que descartamos valores morais reforça a crença de que podem ser substituídos por objetos, destruindo a compreensão do que é bom ou ruim. Os que deixam valores apenas pairarem sobre suas vidas, nem percebem que têm que fazer escolhas. O que explica o Brasil de hoje.
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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