As irmãs Ivone Gonçalves Moreira, 66, e Hilda Parreira Furini, 65, tinham sete e seis anos quando tiveram o primeiro contato com os cadernos, a Cartilha Caminho Suave e os lápis em uma escola. As duas estudaram na Escola Rural São Jerônimo, improvisada dentro de um paiol usado para armazenar o milho servido para o gado. A mãe delas não era estudada. “Minha mãe não sabia ler. Ela não teve oportunidade, nem condições. Naquela época ela não estudou porque se mulher aprendesse a escrever era para fazer cartinha para o namorado”, lembra Ivone. A vontade de conhecer, ler e unir as letras para decifrar as palavras as acompanhava desde muito novas.
A oportunidade de estudar surgiu com a iniciativa do fazendeiro Maurício Taveira e do prefeito de Franca na época, Ismael Alonso y Alonso, em montar uma escola na fazenda. Maurício tinha três filhos em idade escolar e os filhos dos seus colonos também já estavam em fase de começar a estudar. A professora Marly Colheirinhas Novato, hoje com 79 anos, foi a escolhida para alfabeltizá-los. Assumiu sua primeira turma de alunos justamente na Escola Rural São Jerônimo, na região do hoje Jardim Ângela Rosa, em 1955.
Foram montadas três turmas, do primeiro ao terceiro ano, e as irmãs Hilda e Ivone faziam parte do grupo. Marly era a única professora e lecionava para os três anos. As três turmas ficavam divididas em cantos diferentes do paiol, no ano correspondente à série em que estavam. Para montar as turmas, Marly e a dona da fazenda, dona Zinha, saíam a cavalo visitando os colonos para chamar as crianças para estudar.
Marly foi a primeira professora de Ivone e também de Hilda. Ivone e Hilda estavam entre as primeiras alunas de Marly. As três se reencontraram alguns domingos atrás, no dia 6 de abril, após 60 anos sem contato. O reencontro, na casa da professora, foi em Bonfim Paulista, a 105 quilômetros de Franca.
Mesmo experientes e no alto de seus 60 anos, Ivone e Hilda foram chamadas pela professora Marly da mesma forma da infância. “Minhas aluninhas”, exclamou ao revê-las naquela manhã.
Realização
As irmãs e a professora ficaram 60 anos sem contato. E a vontade que as preenchia dia a dia era rever a mulher que lhes ensinou as letras, as palavras, os números. No reencontro, as três relembraram os “bons tempos” na escolinha rural. Resgataram na memória histórias com que muitos de vocês, leitores, irão se identificar, ou por terem vivido experiências semelhantes ou por terem escutado as histórias de seus avós, pais...
Hilda, que seguiu os passos de Marly e se formou professora depois de casada, ensinou alunos por dez anos de sua vida. “Relembramos as aulas de canto, de bordado, do ponto correntinha, ponto cheio... Que alegria poder segurar aquele pedaço de tecido branco, as meadas de linhas coloridas, colocar na agulha e aprender a bordar os pontos tão simples mas tão importantes, para nós tudo era maravilhoso”, disse a professora aposentada.
Hilda escreve, desde 2005, um diário com as histórias que mais a emocionam. O reencontro com a professora Marly está registrado no caderno espiral transformado em diário. O registro preenche quatro páginas e meia. Escrito à caneta, narra a emoção daquele domingo. Relembra ainda as histórias da infância.
Hilda lembrou que chegava da aula e brincava de escolinha com os irmãos. Elas eram de uma família de 15 irmãos e moravam numa chácara. No pomar, embaixo da mangueira, ela montava a escola onde ensinava os irmãos menores. As cadeiras eram pilhas de tijolos, a lousa uma tábua lisa pregada no tronco da árvore, o giz era carvão do fogão à lenha e os cadernos para dar aulas eram papel de pão recortado; folha de caderno não podia ser usada pois fazia falta. “Tínhamos apenas o básico, o necessário.”
Na escola da fazenda, o recreio era no curral quando os animais estavam no pasto, e elas pulavam corda, brincavam de pique-pega e roda.
Para localizar
Ivone está aposentada, mas trabalhou como inspetora na rede estadual por 30 anos e no Diário Oficial acompanhava a trajetória da professora Marly. Por coincidência, a prima de Marly, Nilce Colheirinhas, é vizinha dela e conseguiu os contatos atuais para que Ivone marcasse o reencontro. “Foi muito bom. Ela (Marly) lembrou até do cavalo que usava e que chegava de jardineira para as aulas. Ela falou que ganhou um presente com a nossa visita. Ficou muito emocionada. Naquela época, a gente respeitava demais a professora, mais até do que a mãe da gente.”
Para Marly, rever as “aluninhas” foi uma experiência inesquecível. “Foi o momento mais feliz da minha vida, e não estou exagerando. As duas senhoras foram minhas aluninhas numa fazenda e quando souberam da minha existência ainda quiseram me visitar.” Marly nasceu em Claraval (MG) e na época da escola rural morava em Franca.
O encontro terminou com um lanche e sessão de fotos. Numa época em que a educação caminha tão desvalorizada, relembrar com senhoras na faixa dos 60 e 80 anos de idade o esforço no passado para aprender a ler e escrever emociona.
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