Tudo pode ser inventado, inclusive as tradições que prezamos. É que, por nos antecederem em muitos anos, as tradições parecem ter estado sempre por aí. Mas em algum tempo, lá atrás, alguém testemunhou o seu surgimento: num dia não havia nada, no outro... E foi, em muitas ocasiões, para não dizer em todas, uma imposição.
Mesmo assim, mesmo as tradições mais arraigadas, é normal que comecem a desbotar, o que parece estar acontecendo com a Quaresma, que decaiu de um vermelho grená para tons, digamos, pastéis. Mas não é exatamente assim em todos os lugares, onde se tem menos distração, a religião é mais visível.
Lendo o excelente livro de receitas sertanejas de autoria de Ana Rita Suassuna (lançado em 2010 e esgotado na editora, consegui o meu num sebo), pode-se ver que detalhes da fé, que um dia vivenciamos por aqui e hoje fazem parte da nossa infância, pode ser vista ainda no sertão nordestino - e mais.
Vários fatores contribuem, mas o principal é que o sertanejo sempre usou a fé para dobrar a dura natureza que o circunda. Também por isso, a Quaresma é um período de grandes esperanças: as chuvas têm de chegar até o dia de São José - 19 de março. Essa grande esperança do nordestino une a todos, pobre e rico, porque ninguém faz chover nem pra si próprio. Por isso, os sacrifícios, os jejuns são bastantes observados, afinal, um jejum bem feito, pode trazer as águas que trarão o trabalho, que manterá unida a família no sertão.
Nesse livro, Ana nos conta que todos os adultos, sem exceção, fazem abstinência de carne em todas as sextas-feiras da Quaresma e jejum na Sexta-feira da Paixão e, interessante, independentemente da religião que professem! Esse é um código moral da região que transcende a compreensão da religião de cada um.
Outro costume interessante do sertanejo é o paradoxal pedido de “jejum” que quer dizer na verdade comida para quebrar o jejum. É comum pessoas pobres se dirigirem ao mercado local e sem qualquer cerimônia dizerem aos proprietários de armazém: “vim buscar o meu jejum”. Comerciantes se preparam para eles reservando sacas de farinha, rapadura, coco seco. Cada um ajuda como pode, só não pode negar o “jejum”.
O cardápio da semana santa, normalmente, é: arroz de leite, arroz de coco, cozido de peixe com pirão, peixe de “lata”, aliás, o peixe nas suas várias formas de cocção, e bredo ao leite de coco.
O bredo é a sacrossanta hortaliça do nordestino, pois só é comida nesta época do ano, se assemelha ao espinafre, mas tem sabor mais suave e acompanha muito bem qualquer peixe. O cardápio pode variar, pode ter até bacalhau seco, é que a possibilidade de fartura nas mesas está diretamente relacionada à expectativa de boa ou má colheita.
Pois bem, tive notícias do sertão através de meu tio Vicente, único, dentre tantos irmãos, a não deixar o seu Cariri, nem no último pau de arara. Ele me conta que já choveu bem, não o suficiente para fazer água, mas deu pro verde. Deve significar meia fartura. Mas isso não importa, porque com serviço na lavoura, seus filhos não precisaram vir pra cá. E isso eu sei bem o que significa: é a exuberância...
DICA DA SEMANA
Arroz de coco
O arroz de coco do nordestino é requintado e tem uma maneira especial de preparo. Ele fica cremoso, não é arroz soltinho, chega quase a um risoto, mas não tão molhado. E o segredinho é separar o leite grosso do leite fino do coco.
Pega-se um coco seco e raspa-o. Leve para aquecer com água, coe e reserve, esse é o leite grosso. Daí pega-se 2 xícaras de água quente e joga ao bagaço do coco que deverá ser espremido para a retirada do leite fino.
O arroz deverá ser cozido em um pouco de água com a panela tampada até começar a amolecer. Destampa-se a panela e acrescenta-se o leite fino e outros temperos que desejar, deixe o arroz terminar de cozinhar. Só então despeja-se o leite grosso.
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