O meu atual local de estudo faz parte do complexo do Grande Hotel Campos do Jordão, área de preservada Mata Atlântica, com plaquinhas que indicam a compensação de emissão de gás carbônico. O Hotel fica escondido no alto de um morro que se pode chegar de carro ou a pé. A caminhada nem exige tanto assim da gente e o prazer é imenso, rampa acima se observa as Araucárias no céu e os cachos de pinhão no chão, de resto, observa-se muitas bromélias, hortênsias e heras. Todos os sábados descanso meu cansaço subindo aquela ladeira.
Mas meu curso não é no hotel - é em um prédio anexo. E como o hotel é chique, famoso, etc e tal, meu professor achou interessante fazermos um tour por suas dependências, afinal os cursos de gastronomia e hotelaria têm ambos os pés na cozinha.
E lá fomos nós. Um dos funcionários do hotel veio nos chamar e chefiar o grupo. Viemos pelos fundos, de modo que a entrada estava nos fundos para nós. O longo corredor de tábua corrida, o tapete impecável, lustres bonitos, sem ostentação. E a minha esquerda, todo o tempo: a Mata. Nos reunimos em círculo na porta do hotel, o rapaz se certificou que todos os nossos ouvidos estivessem ao alcance de sua boca e a abriu, ainda que devesse ficar calado: - Trouxe vocês bem aqui, embaixo dessa suíte da ‘esquina’ - a mais requisitada -, daqui tem-se a visão da Mata e do estacionamento de carros, e muitos hóspedes a pedem porque daqui eles podem vigiar seus carros...Porsche, Ferrari... E em mim ele deixou aquela dúvida: o mais bobo é quem faz ou quem conta?
Vimos todo o térreo, a sala de jogos, herança da vocação primeira do hotel, que foi na década de 40 um elegante hotel cassino, depois fechou as portas e esteve fechado por quase duas décadas.
Saímos da apresentação do rapaz e entramos na da Aparecida: cabelos impecáveis, sobrancelhas idem, uniforme duro, e um tom de voz melífluo. Ela é a encarregada de paparicar os grandes hóspedes, aqueles que, segundo ela, estão dispostos a desembolsar até R$ 20.000 por um pacote de feriado.
Ela é a mordomo das suítes. Significa que ela, se preciso, busca o hóspede no heliponto, faz seu check-in numa sala vip, recebe as malas no quarto e as desfaz e arruma tudo dentro das gavetas e armários. E repete tal arrumação todos os dias enquanto a camareira faz o quarto. Providencia todo e qualquer tipo de mimos. E se a ocasião é de aniversário da esposa, por exemplo, compra o presente, as flores e o que mais o cliente quiser. Ele só paga depois.
Aparecida se alongava nos casos de ostentação quando arrematou: - Mês passado uma família esqueceu a mala do bebê e mandou o helicóptero voltar de São Paulo para buscá-la - e isso custa entre R$ 6 mil e R$ 8 mil!
E eu? Cansada de tanta bobeira devo ter denunciado algo ao olhar indisfarçadamente para Aparecida Muhammad Ali. Porque ela forte, certeira e elegante disse a todos: - Esse é o tipo de serviço onde devemos deixar de lado nossos julgamentos, o que meu cliente faz com o dinheiro dele não me interessa. Interessa meu serviço. Esse mundo aqui não existe, é como penso quando recebo meu contracheque.
Eu e Aparecida: estudante e funcionária, almoçamos no mesmo restaurante, e faço questão absoluta de passar pela mesa dela e lhe dizer, todos os sábados, um cordial: boa tarde.
DICA DA SEMANA
Queijo Coalho
Do Livro da Ana Rita Suassuna... Sabemos que o queijo de coalho é menos gorduroso, por isso tem mais firmeza e se presta bem a fritura, empanação, etc. Ana Rita dá duas dicas bem legais:
Para fritar devemos cortar em fatias médias e passar cada um dos lados em farinha de trigo, que ela chama de farinha do reino, ela é do sertão nordestino. Colocar manteiga numa frigideira e quando ferver vá passando as fatias de queijo, virando com cuidado até tostar dos dois lados.
Para assar ela indica assim: pegue uma frigideira de ferro, ponha no fogo bem baixo e coloque as fatias de queijo, quando começar a amolecer vire e deixe formar aquela casca torrada, essa casca fará suporte para o queijo amolecer sem derreter todo. Na hora de servir lembre-se de arrancar a casca junto do queijo, claro.
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