Olho-a nos olhos chorosos e, súbita curiosidade, ou simplesmente para distraí-la, pergunto-lhe:
- Que foi que te atraiu nele?
Pensa um segundo e, em seguida, afirma como que fazendo uma constatação:
- Foi a proteção. - Ilumina-se, instantaneamente, a face dolorida de luto.
- Proteção?!
- É... Ele era meu professor, lembra? – Os olhos sorriram. -- Um dia ele me ofereceu para me ajudar, aí ele ia lá em casa me dar aulas... eu não prestava atenção nada, ficava só olhando aqueles braços fortes...
Imperceptível quase o sorriso maroto. Mais rápido do que eu gostaria, seu semblante mergulha outra vez em penumbra, olhar fixo em um ponto perdido.
Perdi-me também, lembrando-me dela em cena recente: olheiras profundas, procurando melhor posição para a cabeça dele nos travesseiros, checando fraldas geriátricas, horários de remédios... De vez em quando passava levemente pequena toalha branca na testa suada do marido, gesto que mais parecia desesperado carinho.
Silenciei-me. Não haveria ela de perceber minha comoção! Engulo uma incerteza: quem protege quem?
Inerita Alcântara, professora
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