Na estiagem, o pó vermelho impregna nas roupas do varal, nos móveis e na pele. No período das chuvas, é a vez da lama. Fora as contas de água e luz, nenhuma correspondência chega às caixas de correio das cerca de 250 pessoas que habitam o bairro Alto da Boa Vista, em Restinga. “É injusto! A gente paga imposto como todo mundo e tem que viver encardido”, disse enquanto apontava para a própria camiseta o pedreiro José Domingos de Carvalho, morador do Boa Vista. Outra reclamação de quem vive ali é a falta de benfeitorias como praças, postos de saúde e limpeza urbana. O matagal passa a tomar conta dos terrenos sem construção e, para completar esse cenário de abandono, uma escola, cuja placa anuncia o investimento de R$ 1.585.100 por parte do Governo do Estado, está inacabada. A construção, iniciada nos primeiros meses de 2012 e paralisada em novembro do mesmo ano, conta com a promessa da Prefeitura de ser retomada em breve, tão logo o Governo aprove o projeto aditivo. “A verdade é que somos tão esquecidos que nosso bairro ainda consta como zona rural na Prefeitura. Nem o ônibus circular entra aqui dentro”, afirmou a comerciante Tatiana Rodrigues.
Ao contrário do que possa parecer, não se trata de um bairro recém-criado. Há 14 anos os moradores lutam para conseguir uma infraestrutura que lhes é garantida em contrato - algo que o Ministério Público investiga atualmente (leia texto nesta página). De acordo com os moradores, o documento prevê que a massa asfáltica seja paga por eles, que se dizem dispostos a assumir a conta. No entanto, antes desta etapa, galerias pluviais devem ser construídas pela Prefeitura, mas um jogo de empurra entre a Administração e a Câmara impede que as galerias sejam construídas para que os moradores possam pleitear o asfalto. Segundo o prefeito Paulo Pitt (DEM), os entraves que têm impedido o avanço das obras são criados pela Câmara por “picuinhas políticas”. “Eu já tenho o recurso para as galerias, mas preciso de autorização da Câmara para reiniciar a obra. A documentação está toda com os vereadores, que se recusam a aprovar o projeto. A realidade é que eles não querem me deixar administrar a cidade.” Por sua vez, a Câmara alega que o projeto não é aprovado porque é apresentado com falhas estruturais. “O projeto estava incompleto. Não dizia nem se a Prefeitura usaria máquinas próprias ou terceirizadas”, disse o presidente do Legislativo, Dejair de Freitas (PMDB), o “Guim”. Entre as irregularidades apontas pela Câmara estavam ainda a ausência de um projeto executivo com desenho de plancha, um memorial descritivo da obra e anotações de responsabilidade técnica. “Estando tudo certo, a Câmara aprova por unanimidade a construção das galerias. Acredito que, na próxima sessão, a gente já vote o projeto”, prometeu Guim.
Mobilização dos moradores
Os moradores do Boa Vista há muitos anos se organizam para reivindicar melhorias para o bairro. Julimar Rodrigues é um dos que encabeçam o movimento que insistentemente tem cobrado respostas do prefeito e da Câmara. Durante uma sessão do Legislativo, perguntou claramente qual seria o entrave para que as obras nunca acontecessem. Ao ouvir dos vereadores que seria problemas técnicos nos projetos apresentados pela Prefeitura, pediu para que fosse descrito no papel quais itens deveriam ser atendidos para, enfim, conseguir a infraestrutura de seu bairro. “Levamos esse papel ao prefeito e mesmo assim nada acontece. Já fizemos abaixo assinado e na última semana procuramos o Ministério Público para intervir.”
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.