Pequena Miss Sunshin é tema do evento Cinema & Psicanálise


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Olive quer vencer o concurso Pequena Miss Sunshine. A família, ao tentar realizar o desejo da garotinha, viaja mais de mil quilômetros, pelo país em uma velha Kombi
Olive quer vencer o concurso Pequena Miss Sunshine. A família, ao tentar realizar o desejo da garotinha, viaja mais de mil quilômetros, pelo país em uma velha Kombi
O filme Pequena Miss Sunshine, 2006, é uma comédia dramática. Rimos pelo reconhecimento de que somos retratados, em maior ou menor grau; rimos com lágrimas nos olhos. Os personagens vivem situações dramáticas, e são ternamente engraçados por possuírem, como todos nós, sonhos gigantes, mas uma vida de gente comum, batalhada, frustrante, quase sempre decepcionante. 
 
A Sétima Arte permite o olhar atento ao que vivemos, ao que tem vivido a humanidade em sua história. Aporta um registro e uma crítica, sendo obra de assimilação e transformação de valores. O Cinema não é somente entretenimento, mas pode ser instrumento-arte de investigação, de como nos constituímos, como seres culturais, antropo-socio-psicologicamente. 
 
O grupo fundador do evento Cinema & Psicanálise espera desdobrar, a cada encontro, um recorte da nossa realidade, psíquica e social. O instrumento de reflexão privilegiado pelo grupo é a Psicanálise. Ao analisar a obra artística, nós nos deparamos com uma pluralidade, não generalista, e, portanto, fecunda. Cada um, na platéia, contribui com a sua particular experiência de vida, assim como quem o comenta, sob o vértice estético, artístico ou psicanalítico.
 
Pequena Miss Sunshine é a história do desejo de uma garotinha de sete anos, Olive, de agradar ao pai, Richard, que tenta publicar um livro de autoajuda (sem sucesso). Richard divide as pessoas entre vencedores e perdedores (em inglês, winners e losers). Perdedor, loser, fracassado, talvez seja um dos, ou o adjetivo mais depreciativo norte-americano, cultura centrada no sucesso, em resultados, basicamente materiais. 
 
Olive pretende vencer o concurso chamado Pequena Miss Sunshine (sábado, 15h Centro Médico). A família, ao tentar realizar o desejo da garotinha, viaja mais de mil quilômetros, atravessando o país em uma velha Kombi amarela. Na abertura do filme, os seis membros da família são apresentados: cada qual ensimesmado, narcisicamente, em um tipo de conflito, e abrigando um grande sonho, idealizado. Richard, o escritor do livro de autoajuda, que não motiva nem o seu editor; a mãe de Olive, Sheryl, que valoriza a honestidade, mas mente; Olive, de óculos grandes e desengonçada; Dwayne, adolescente, que fez voto de silêncio, lê Nietzsche, sonha ser aviador e diz odiar a família; o avô, veterano da II Grande Guerra, expulso do asilo de idosos por ser viciado em heroína, e querendo transar com todas as mulheres do mundo; e o irmão de Sheryl, Frank, homossexual, especialista em Proust, que tenta o suicídio depois de ter sido rejeitado pelo amante. 
 
A vagarosa Kombi amarela, sem embreagem e com buzina disparada, representa a decadência material da família, que pega no tranco e empurrada. Nela, os seis acomodam sonhos e frustrações. 
 
A desadaptada família Hoover conquista o vencedor sentimento de pertencer à família, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza (e nem a morte separa um do outro). É emblemática a cena, repetida, em que cada familiar entra na Kombi em movimento. Richard guia, em seguida entra Olive, depois o avô, a mãe, Frank e por último o adolescente Dwayne. Existe imagem mais perfeita para o esforço de reunir a família na movimentada, caótica, vida contemporânea? 
 
Buscar o sonho, encontrar prazer no esforço de alcançá-lo tentando, pode ser a maior recompensa. Não é o resultado final que diz se somos ou não vencedores. É na travessia, na experiência, no compartilhar a experiência, é que temos a evidência (ou não).

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