Violência doméstica


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A partir do fim do período da ditadura militar, na década de 1980, criou-se um amplo debate no País a respeito da violência doméstica, que vitima mulheres em um número que ainda não conseguiu regredir, mesmo diante do recrudescimento da legislação a respeito. Em um contraponto aos anos anteriores, quando a mulher era considerada ‘ser inferior’, relegada ao recesso do lar e à vivência do trabalho doméstico, a Lei Maria da Penha -- cujo nome homenageia uma dona de casa espancada de forma recorrente pelo marido, o que a deixou paraplégica -- veio trazer um alento a milhares de vítimas que continuam sendo agredidas em diversos pontos do País.
 
Em meados do século passado, até o Código Civil relegava a mulher a segundo plano. Tinha a obrigação de cuidar da casa, dos filhos e do marido. Poucas se aventuravam em entrar no mercado de trabalho. Havia profissões ‘femininas’ ou ‘masculinas’. A partir dos anos 1980, novos ventos passaram a soprar e as mulheres foram conseguindo abrir seu espaço em todos os segmentos da sociedade, incluindo na política. Vinte anos antes a nomeação de uma mulher para o Ministério da Educação e Cultura tinha sido tratada com grande espanto. A eleição da primeira senadora também. Hoje, mulheres dominam a vida profissional, política e cultural do País.
 
Quem poderia dizer, há trinta anos, que uma das mais respeitadas empresárias do País fosse Luizinha Trajano, do francano Magazine Luiza, que ela transformou numa das mais sólidas instituições do varejo do País? Ou então que fôssemos governados por Dilma Rousseff? Ou que a maior empresa estatal brasileira (à parte os problemas recentes da companhia) seja comandada por outra mulher, Graça Foster, que tenta apagar os ‘incêndios’ ou prejuízos causados pelos homens que a dirigiram anteriormente?
 
Diante de tudo isso, a manchete de ontem do Comércio expõe uma situação que ainda é comum no País: a violência doméstica, onde mulheres são agredidas covardemente pelos próprios maridos. A situação vivida no último final de semana foi tão cruel (e inusitada) que deixou a própria delegada Graciela Ambrósio, da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) surpresa pelo número de ocorrências do tipo. Em uma noite classificada como violenta por policiais de Franca, seis mulheres foram vítimas de agressões em suas residências no domingo. Dos seis agressores, todos homens, três foram presos, dois fugiram e um escapou da prisão porque a companheira se recusou a formalizar o flagrante. Das vítimas, três são casadas com os agressores, uma é separada, outra, filha, e a terceira, mãe.
 
Este problema, ainda latente da cultura brasileira, precisa ser atacado de forma ampla e abrangente. Pelo que se percebe, somente a Lei Maria da Penha não é capaz de conter a violência desmedida que muitas vezes ainda fica circunscrita ao interior das residências. As agressões contra as mulheres são abjetas. Mas permitir que continuem contando apenas com a força de uma lei para impedi-las é ingênuo e desumano.
 
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