Içás - Bitu e o cordeiro serrano


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Até semana passada, era o inverso da praia: de uma ponta a outra, até onde minha vista alcançava, não se via ninguém - pra não dizer ninguém, um ou outro, mas gente daqui. A linha do trem era apenas dormentes e ferro. Na primeira vez que a cruzei, fiquei receosa, depois tomei confiança e não pensei mais na possibilidade de um trem. 
 
Hoje, enquanto amanhecia e eu subia a serra, uma bruma branca em meio à Mata Atlântica tentou me prevenir de que alguma coisa estava prestes a mudar, pensei se tratar de um certo mistério vegetal. Interpretei errado. 
 
Campos do Jordão começa a dar ares de praia. O início do frio marca o começo da temporada turística. Saí de meu curso e dei de cara com um monte de gente no caminho, que antes era só meu. Custei atravessar a avenida e - surpresa! - lá vinha o trem.  Apareceram também as caminhonetes tipo safari para levar os turistas a ver de perto a belíssima Mata Atlântica - e como é bela...
 
Campos do Jordão está encravada na mais extensa área de proteção ambiental já declarada pelo governo brasileiro. E protege os ecossistemas de encosta da Mata Atlântica - um tesouro, portanto. Mas não está sozinha, embora seja a mais famosa: a região conta com estâncias climáticas com vocação turística, boas pousadas e boa comida.
 
E por falar em comida, falo das Içás. Não relacionamos, nós e as formigas, como ‘comedores e comida’, parece-nos coisa asiática. Mas, nessa região de mata, desde os indígenas foi prática comum alimentar-se das formigas Içás. Elas foram muito comuns em todo o Vale do Paraíba, hoje quase não se vê.
 
As Içás exibem um comportamento curioso: elas são as fêmeas, de bundas volumosas, apelidadas de tanajuras, o macho da espécie se chama Bitu, e quando se iniciam as pancadas de chuva eles saem voando dos formigueiros para acasalarem, esse é o melhor momento para captura. Alguns moradores comem-na pura in loco, mas, até onde sei, o que se pode fazer de melhor é uma farofa com as bundinhas previamente fritas. 
 
Mas, falando mais a sério, achei interessante a criação de caprino da região, especificamente o Cordeiro Serrano. Não experimentei, mas é coisa fina. Há pedido de certificação de origem, e os criadores buscam a padronização da carcaça: mesma suculência, peso, tamanho e sabor. Os criadores do Vale, juntos, fornecem cerca de 7 mil animais ao ano - infelizmente, apenas para abastecer o circuito gastronômico dessa região. É um mercado exigente que engloba Campos do Jordão, São José dos Campos, Taubaté e Cunha - onde há anualmente o festival gastronômico do Cordeiro Serrano.
 
É fato que o cordeiro não é originário daquela região, foi introduzido e se deu muito bem, perpetuando características singulares. Inicia-se uma tradição, e daqui 100 anos parecerá que ele sempre esteve ali. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Caqui
 
Começa a temporada forte do caqui, hora de comer à beça quem gosta da fruta, de se lambuzar sensualmente com essa linda fruta. Mas tem muita gente que não gosta e as crianças precisam ser iniciadas.
 
Para isso, nada melhor que proporcionar a mistura das coisas. Uma maneira deliciosa é retirar a polpa bem madura, misturá-la com creme de leite de lata sem o soro, um ao lado do outro, bem gelados. Outra alternativa é fazer um doce da polpa também bem madura sem a casca, deixar ferver e reduzir. Esse doce pode bem servir para geléia. E nesse caso, o acompanhamento deverá ser uma boa colherada de chantilly.
 
Para o doce, a sugestão de proporção é: 250 ml de polpa para ¼ de xícara de caldo de limão e ½ xícara de açúcar e 1 colher rasa de sopa de maisena previamente diluída em água. E só deixar ferver até ponto de doce. Boa temporada! 

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