O autor brasileiro mais lido na última década, Augusto Cury, é também um dos mais modestos. Com 16 milhões de exemplares vendidos no Brasil, publicações em mais de 60 países, revelou ao Comércio que seu desejo “é ser apenas um semeador de ideias”. Ele atendeu a reportagem no Espaço Cedro, em Franca, no início da semana retrasada, antes de subir ao palco para palestrar no encerramento do 4º Encontro Mulher Empreendedora, realizado pela Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca).
Cury, que além de escritor é médico psiquiatra e psicoterapeuta, já publicou mais de 30 livros ao longo de seus 55 anos de vida. Desenvolveu a teoria da Inteligência Multifocal, sobre o funcionamento da mente humana na construção do pensamento e formação de pensadores. Há anos, trocou sua vida agitada na Avenida Paulista, em São Paulo, para viver em um sítio, em Colina, sua pequena cidade natal, a cerca de 140 quilômetros de Franca.
Na entrevista, o psiquiatra falou sobre as doenças que acometem a humanidade, decorrentes da Síndrome do Pensamento Acelerado, descoberta por ele e que é caracterizada pelo excesso de estímulos abstraídos da televisão, internet e outros meios. Comentou ainda a deficiência do sistema educacional mundial e como deixou de ser ateu e passou a acreditar em Deus.
A confirmação de sua presença como palestrante no encerramento do Encontro da Mulher Empreendedora foi muito comemorada em Franca. Por que as mulheres gostam tanto dos seus livros e pensamentos?
As mulheres são especiais. Para mim elas são mais inteligentes, altruístas e solidárias que os homens. Os grandes erros da humanidade foram cometidos por homens. As grandes guerras, genocídios, exclusão social, competição predatória são fenômenos que foram gestados e desenvolvidos pelos homens. E chegou a vez das mulheres assumirem papéis relevantes no teatro social. Sinto que elas, a medida que se infiltram nesse processo, também se estressam, desprotegem sua emoção e acabam sendo abarcadas por uma série de transtornos como, por exemplo, a Síndrome do Pensamento Acelerado, que é uma síndrome que tive o privilégio de desenvolver e a infelicidade de saber que grande parte da população mundial é acometida por ela, em destaque as mulheres. Mas também, elas desenvolvem uma série de transtornos, como anorexia e bulimia (transtornos alimentares). A depressão tem atingido intensamente as mulheres. Sinto que elas têm utilizado os meus livros como ferramenta para proteger sua emoção, para gerenciar seus pensamentos e para desenvolver as habilidades para que o ‘eu’ aprenda ser autor da própria história.
O senhor defende o controle das emoções como um dos fatores imprescindíveis para o sucesso. Como desenvolver essa tarefa?
O controle das emoções, ou melhor, a capacidade de proteger a emoção, é fundamental para o ser humano sobreviver nessa sociedade altamente competitiva e saturada de excessos. Excesso de informação. No passado o número de informações dobrava-se a cada 200 anos, hoje dobra-se a cada um ano. Excesso de preocupações, de atividades, de trabalho intelectual, de uso de smartphones e de internet. Tudo isso conspirou contra a movimentação dos pensamentos na mente humana, levando a um nível de ansiedade e de desproteção emocional sem precedentes na história. Para se ter uma ideia, 1,4 bilhão de pessoas, cedo ou tarde, deve desenvolver o último estágio da dor humana: uma depressão. E provavelmente 80% das pessoas estão desenvolvendo a Síndrome do Pensamento Acelerado, que atinge de crianças a pessoas da terceira idade e não tem nicho. Pessoas de classe C, D, B e A estão sendo frontalmente atingidas por essa síndrome. Pensar é bom. Pensar com consciência crítica é ótimo. Pensar demais é um crime contra a qualidade de vida. Gera dores de cabeça, musculares, queda de cabelo, sofrimento por antecipação, irritabilidade, acordar fatigado, déficit de concentração e de memória. Provavelmente, os leitores deste belo jornal vão se identificar com uma parte significativa desses sintomas. Infelizmente, a humanidade adoeceu rápido e coletivamente. Imagine que 80% são alguns bilhões de pessoas que já estão enfermas. Nós temos que usar ferramentas, como digo no meu livro lançado há pouco que chama-se: Ansiedade, como enfrentar o mal do século. Ele se tornou o livro mais lido do país rapidamente porque a humanidade está ansiosa, completamente angustiada, sem proteção. O ‘eu’ não é gerente da emoção. As pessoas nem sabem que devem proteger a sua mente. A humanidade, na era da medicina e da psiquiatria, adoeceu drasticamente. Porque na era do entretenimento nunca fomos uma geração tão triste: é um paradoxo. Tenho abordado, algo está errado. E tenho apontado porque está errado: mexemos na caixa preta do funcionamento da mente. O ‘eu’ pode e deve usar ferramentas para desenvolver o autocontrole, proteção da emoção, gerenciamento da mente para ter saúde numa sociedade que adoeceu rápida e coletivamente.
Que prejuízos a Síndrome do Pensamento Acelerado causa em crianças e adolescentes?
Crianças e adolescentes estão adoecendo no mundo todo. Muitos médicos, inclusive psiquiatras e pediatras, estão errando o diagnóstico achando que é hiperatividade. Mas na verdade, as crianças estão inquietas, erram os mesmos erros, têm déficit de concentração, não têm deleite de aprender nas escolas, estão agitadas, exploradoras dos seus pais. Querem tudo rápido e pronto. Reitero: não porque são hiperativas, essas representam de 1% a 2% da população. Mas por que de 80% a 90% das crianças estão apresentando esses sintomas? Porque estão desenvolvendo a Síndrome do Pensamento Acelerado. Uma coisa importante é que estamos introduzindo na grade curricular, uma vez por semana, técnicas de como gerenciar pensamentos, desenvolver a inteligência, generosidade, altruísmo e raciocínio complexo. Esse programa se chama Escola da Inteligência. Ao longo de 20 anos o desenvolvi. E todos os pais que leem esse jornal quero que conversem com os diretores de sua escola seriamente e façam comitê para que os diretores entendam que não basta ensinar matemática com brilhantismo, física, química, biologia ou línguas se nós não ensinarmos as ferramentas para que o ‘eu’ se torne autor da própria história, gerencie pensamentos, se coloque no lugar dos outros, exponha e não imponha as ideias, altruísmo e assim por diante, as crianças e adolescentes têm pouca chance de serem saudáveis. Renunciei aos direitos autorais do Programa Escola da Inteligência para que seja acessível a todas as escolas. Há mais de 30 países interessados em aplicá-lo.
O sistema educacional brasileiro está preparado para formar pensadores?
O ensino no Brasil não está (preparado) e nem no mundo. Os países que têm o PISA , um índice de desenvolvimento do raciocínio, ligado à matemática, raciocínio lógico, línguas e interpretação de textos, mesmo os países como Suíça, Suécia, Dinamarca ou China - que estão no topo da hierarquia - estão desenvolvendo alunos com competências técnicas, mas não estão desenvolvendo habilidades emocionais, nem capacidade do ‘eu’ se tornar líder de si mesmo, capaz de filtrar estímulos estressantes, trabalhar perdas e frustrações. Então, estamos gerando meninos com diplomas nas mãos, mesmo nas nossas universidades. Embora os professores sejam os profissionais mais importantes da sociedade, o sistema educacional está enfermo, está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente. Acabei de dar uma conferência e lançar talvez o primeiro programa mundial de prevenção de transtornos psíquicos, nos EUA e vou lançar em Dubai e Israel, ou seja, estou falando que nós temos que mudar a educação mundial. Essa educação que enfileira os alunos, de 2 a 3 anos, já gera timidez, insegurança e hierarquia intelectual. Um desastre. Essa educação que só ensina sobre matemática, física e química, ou competências técnicas, ou seja, sobre o mundo de fora, mas quase nada sobre o planeta psíquico, ela não instrumentaliza pensadores, forma pessoas completamente despreparadas para enfrentar perdas, contrariedades, angústias, crises, conflitos, dor emocional e nós estamos num impasse muito grande. Temos que mudar dramaticamente. A Escola da Inteligência é hoje um grande parceiro. Há 200 mil alunos já vivenciando o programa.
Escola da Inteligência pode ser um caminho para diminuir o índice de violência?
Tenho convicção. Porque onde estamos aplicando, em centenas de escolas, os professores dizem que diminuiu drasticamente a violência, o bullying, a agressividade e as depredações que ocorrem nos pátios das escolas. Melhora a solidariedade e generosidade. É surpreendente.
Seu próximo lançamento será o livro Pais inteligentes formam sucessores não herdeiros. O que ele aborda?
O Comércio é um dos primeiros órgãos de imprensa para o qual falo sobre esse livro que estou publicando agora. Todo mundo é um herdeiro, inclusive da carga genética, até criança abandonada pelo seus pais. São herdeiros de valores, de ética, de cultura de seu povo e alguns são herdeiros de bens materiais. Mas um herdeiro é um torrador irresponsável da sua herança. Não pensa nas consequências, enquanto um sucessor constrói um legado. O herdeiro vive na sombra dos seus pais, enquanto o sucessor se torna autor da própria história. Herdeiro quer tudo rápido e pronto, enquanto o sucessor elabora suas experiências porque sabe que quem vence sem riscos, triunfa sem glória. Portanto, um sucessor é alguém que se curva em agradecimento, enquanto o herdeiro explora os pais e não tem gratidão pelos seus mestres e pela sociedade. Ele só pensa em si. Estamos vivendo no mundo todo uma safra de herdeiros e não de sucessores.
O senhor é considerado um ex-ateu. O que o fez mudar?
Pesquiso sobre a última fronteira da ciência, o mundo onde nascem os pensamentos. Para mim, Deus era fruto de um cérebro apaixonado pela vida, que resistia ao seu caos na solidão de um túmulo. Talvez fui mais ateu que Nietzsche, Sartre, Didero e Freud. Eles foram antirreligiosos. Fui um ateu científico. A minha teoria, da Inteligência Multifocal (hoje objeto de mestrado e doutorado em alguns países) que estuda não apenas a construção de pensamentos, mas a formação de pensadores, utilizei para estudar grandes personagens da história: Einsten, Gandhi, Agostinho, como se saíram do hall dos comuns e brilharam na sua inteligência. E fui até Jesus. Será que ele era fruto de um grupo de galileus, que queria romper o cárcere de Tibério César, o imperador daquela época? Quando estudei sua personalidade em várias biografias, nos evangelhos, sob o ângulo da ciência, psicologia, sociologia, psicopedagogia e até psiquiatria, fiquei perplexo e percebi que ele não cabe no imaginário humano. Então passei a crer em Deus, só que não defendo uma religião. Pra mim crer em Deus não é fruto de um cérebro apequenado, mas de um cérebro inteligente que considera a vida um grande texto e a morte não um ponto final, uma vírgula porque o texto continua na eternidade.
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