Inaugurada em janeiro último, em Londres, a organização denominada “A Primeira Igreja Ateia do Reino Unido” é um estranho paradoxo. Criada por comediantes, atores e músicos, tem como finalidade reunir “ex-deístas” e ateus para celebrar uma vida de voluntarismo sem Deus, com foco na rebeldia, porque irreverente a certos aspectos da moral tradicional, conquanto adote o senso comunitário cultuado pelas religiões. Sobre essa nova e paradoxal “seita”, o articulista João Pereira Coutinho, no “Ilustrada”, da Folha de S. Paulo, de 7/1/14, relata que o culto próprio da assembleia, em tudo, se assemelha ao que professam os crentes em Deus, com pastor, sermão e momentos de oração. Diz que a moda pegou e se espalhou para os Estudos Unidos, Austrália, e já sofreu até um cisma, com a criação de outras denominações mais afeitas às exigências do ateísmo.
Nós, espíritas, entendemos que, por força do livre-arbítrio, cada qual tem o direito de crer ou deixar de crer em alguma coisa, segundo a própria convicção, tanto por tratar-se de questão de foro íntimo, quanto pela certeza de que ninguém é melhor que ninguém por crer ou não crer, ser ou não religioso. O que importa é a prática do bem e do perdão, a nos promover o progresso espiritual. Em nada adiantará a participação de alguém em cultos exteriores, se o interior da criatura permanecer maculado por maus sentimentos.
Jesus nos ensinara: “Se alguém tem alguma diferença com seu irmão, deixe a oferenda ao lado do altar e vai, primeiro, reconciliar-se com ele.” E dissera, ainda: “Não são os que dizem Senhor, Senhor, os que entram no Reino dos Céus, mas os que fazem a vontade de meu Pai”, ensinando-nos que a vontade do Pai é a de que nos amemos uns aos outros. Quanto à certeza da existência de Deus, o Espiritismo nos assegura que a trazemos no inconsciente, daí instalar-se no nosso íntimo a necessidade de um caminho para buscá-Lo.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
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