O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) errou ao divulgar, em 26 de março, que 65% da população concordava que ‘mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas’. O Ipea assumiu ontem que houve falha e que o porcentual correto de pessoas que concordam com essa afirmativa é de 26%. A divulgação do dado no final de março gerou ampla repercussão em diversos segmentos da sociedade, repudiando que tamanha fatia da população concordasse com essa afirmativa. Porém, mesmo assim, pelo menos 1/4 dos brasileiros consideram a vítima responsável pelo crime. O número deixa exposta a necessidade de que muito ainda precisará ser feito para que as igualdades sejam vistas com naturalidade e, acima de tudo, respeito.
A repercussão da pesquisa com números incorretos foi tão intensa que até mesmo a presidente Dilma Rousseff pronunciou-se sobre o tema e demonstrou solidariedade à jornalista Nana Queiroz, uma das organizadoras do movimento “Eu não mereço ser estuprada”, que se popularizou nas redes sociais nos últimos dias, após a divulgação da pesquisa do Ipea. O diretor de Estudos e Políticas Sociais do instituto, Rafael Guerreiro Osório, pediu exoneração assim que o erro foi detectado, informa o órgão. Na verdade, o Ipea cometeu dois erros na divulgação da pesquisa, por causa da troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases “Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar” e “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, admitiu o órgão.
O Ipea cita que a “correção da inversão dos números entre duas das 41 questões da pesquisa enfatizadas acima reduz a dimensão do problema anteriormente diagnosticado no item que mais despertou a atenção da opinião pública”. Mesmo após a correção, o instituto cita que “os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Isso demonstra que o preconceito continua enraizado entre os brasileiros. E não apenas contra as mulheres, mas também contra minorias como negros, nordestinos e homossexuais.
Em apenas um século, a participação das mulheres foi preponderante para que se conseguissem, em todo o mundo, conquistas importantes. No começo do século passado, a mulher era impedida de votar, sempre relegada a trabalhos aviltantes e praticamente não tinha direitos. Hoje, em pleno século XXI, com avanços espetaculares em todas as áreas do conhecimento humano, não se pode aceitar que a mulher seja considerada culpada por um crime do qual ela é vítima. É sinônimo de ignorância e de desrespeito, algo que não deveria mais caber em um País como o Brasil. Capaz de eleger uma mulher para comandar os seus destinos, o País, em momentos como este, se revela esquizofrênico ao revelar parcela expressiva da população opinando como se vivesse no século XVIII. Ou como se pertencesse a uma sociedade do tipo muçulmana onde o gênero feminino, ainda considerado um zero à esquerda, é visto como aquele sobre o qual recai todo o mal do mundo.
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