Há acasos que nos descortinam novas maneiras de ver. Foi o que aconteceu comigo ao aceitar convite da colunista Patrícia para visitar, junto com outras 14 mulheres, o Shopping Iguatemi de Ribeirão Preto, na terça-feira, 25. A Experiência Escher, de repente no meio do caminho, me fez resgatar uma reflexão: a arte movimenta nosso espírito, nos transporta a outras dimensões, é chuva na aridez em que às vezes se transforma o mundo.
Ribeirão Preto foi contemplada com esta mostra que vem percorrendo algumas capitais brasileiras. O curador Pieter Jabbes trouxe ao nosso país parte do precioso acervo do artista holandês que renovou a gravura com temas onde à imaginação lúdica somou estética matemática. Eleita pela revista The Art Newspaper “a exposição mais visitada no mundo em 2011”, é convite para que tentemos nos despir de preconceitos, julgamentos de valor e certezas atávicas antes de olharmos para gravuras como Relatividade, Cascata, Belvedere, Céu e Água, Autorretrato em esfera espelhada e Metamorfose. Há outras, e também instalações.
Em Relatividade (1953), pessoas não conseguem andar, sentar ou ficar em pé no mesmo piso, pois sua concepção de horizontal e vertical não se conjuga, porém podem usar a mesma escada; e se mudamos nosso ângulo de visão, as posições se invertem: quem está correto? Aliás, existe um conceito de ‘correto’? Belvedere (1958) mostra uma escada de mão colocada de maneira impossível, apoiada ao mesmo tempo no interior e na fachada externa de um sobrado, mas só nos damos conta disso depois de minutos de atenta observação. Cascata (1961) faz correr água de baixo para cima e em ziguezague - será isso mesmo? Autorretrato em esfera espelhada (1935) quer nos dizer que o sujeito é fatalmente o foco de seu próprio mundo? Céu e água (1938) seria uma cena do Gênesis, com peixes ascendendo do fundo negro da água em direção ao céu todo branco, onde então o que se observa são pássaros? E o que dizer de Metamorfose (1940), painel onde o artista começa brincando com o vocábulo que dá título à obra e com ele avança, transformando-o em quadrados que viram répteis que viram folhas e estas losangos e estes colmeia, depois abelhas, então flores e peixes e pássaros e cubos e casa e cidade e jogo de xadrez e parede quadriculada e de novo a palavra metamorfose? Uma linda narrativa sobre o movimento incessante da vida. Eu ficaria horas diante desta litografia.
Escher, realista, meticuloso, obcecado pela geometria e as repetições infinitas, tem um estilo preciso, detalhado, que não faz concessão ao leve, vaporoso, suave, delicado. Suas técnicas de trabalho limitam frequentemente o uso da cor, mas a maestria no desenho, na perspectiva, nos contrastes e nas formas é impositiva: ele descreve as estruturas, se apropria delas e as transforma. Fascinado pela simetria, ordem, perspectiva, e pelos motivos inspirados em mosaicos árabes, Escher se afastou dos contemporâneos, que preferiam uma arte menos cerebral e mais caótica, e tornou singularíssima a sua obra onde os traços parecem algumas vezes marcados a régua e compasso.
Apaixonado pela absoluta perfeição dos conceitos matemáticos, aos poucos ele se convence de que não possuem equivalentes na realidade, pois a natureza do universo nos escapa. Mas ‘se não pode descrever nossa realidade, o artista inventa a sua’, escreveu um crítico. Cria um universo feito de ilusões e povoado por criaturas imaginárias, surrealistas. Seus Répteis geométricos exibem largas passadas, escalam o infinito e transitam de uma a outra dimensão sem qualquer dificuldade. Neste desenho dos mais conhecidos do artista, retoma-se a ideia do Ruban de Möebius- uma fita inconsútil, um círculo perpétuo. O eterno recomeço é tema onipresente na obra de Escher.
Olhando-o à distância, insatisfeito com as limitações da folha plana, o artista parece deslocar para seus “espaços impossíveis”, uma frase de Colette (1873-1954), romancista francesa que influenciou os de sua geração: “Tudo está em mudar.” Para fixar o improvável, cunhou o aforismo que o define: “Desenhar é enganar”. De fato, ele brinca com nossos sentidos, ao mesmo tempo em que parece nos dizer em off que há necessidade de um esforço mental para rechaçar o olhar imediatista, já habituado ao óbvio, engessado pelo hábito, incapaz de procurar diferentes ângulos na tentativa de se aproximar da realidade- esta que está sempre nos escapando. Escher instiga o olhar do espectador para leituras que vão muito além do estímulo que sua obra oferece.
A exposição permanece aberta até o dia 17. É extraordinária oportunidade para sentir de perto o quanto nos acrescentamos quando nos permitimos sair da acomodação.
ARTISTA GRÁFICO
Maurits Cornelis Escher.
Nasceu na Holanda, em 1898 e é considerado um dos mais importantes artistas gráficos modernos. Também trabalhou com tapeçaria, murais, selos postais e ilustração de livros. Morreu em 1972. Filho de engenheiro, manifestou desde criança gosto pelo desenho. Matriculado na escola de Arquitetura e Artes Decorativas de Haarlem, tornou-se aluno de Samuel Jerussum de Mesquita, célebre professor português que lhe ensinou técnicas de desenho e despertou seu gosto pela gravura. Ao terminar os estudos, decidiu viajar para conhecer o mundo. Começou pela Espanha. Depois foi à Itália e se fixou em Roma, onde se dedicou ao trabalho gráfico. Mas a ascensão do fascismo o levou a sair do país. Mudou-se para a Suíça e depois para a Bélgica. Em 1941 voltou à sua terra natal. De todos os lugares novos que conheceu, conferiu maior importância à Espanha, pois foi ao visitar o Castelo de Alhambra, em Granada, que teve um insight para seus trabalhos futuros. Ali conheceu a arte muçulmana nos azulejos e esta descoberta despertou seu profundo interesse pela divisão regular do plano em figuras geométricas que se transfiguram, repetem e refletem nas pavimentações. Ao preencher as superfícies, o artista holandês substituiria as figuras geométricas por outras existentes na natureza, como pássaros, peixes, répteis, flores e pessoas (o que é vedado na arte islâmica) - mas sempre estilizadas. A obra deixada por Escher encontra-se exposta em três museus de seu país. No total são 448 litografias, xilogravuras e gravuras em madeira, além de mais de 2000 desenhos e esboços. No trabalho deste artista, percebem-se a importância da matemática e da arquitetura; a minuciosa observação do mundo; expressões da sua fantasia; e ainda um olhar curioso que tenta apreender a realidade fascinante. Por tantas qualidades, continua a surpreender milhões de pessoas ao redor do mundo. Como Michelangelo, Da Vinci, Dürer e Holbein, era canhoto. (SM)
Exposição
Nome: Experiência Escher
local: Iguatemi - Ribeirão Preto
Data: Até 17 de abril
Horários: Seg a sexta 12 às 20h;
sáb, 12 às 22h; dom e ter, 12 as 20h
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora
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