Há uma semana fui gentilmente convidado a falar para estudantes de Filosofia algo de interesse e pertinência sobre vida, obra e pensamento de Euclides da Cunha. Mais afeito à exegese literária e à denúncia de um crime da nacionalidade (extermínio do arraial de Canudos, no interior da Bahia, em 1896, pelas tropas do exército brasileiro), senti-me um pouco desconfortável em abranger pontos filosóficos da obra euclidiana a uma plateia atenta e ciosa.
Mas com o passar da palestra, senti uma agradável recepção às minhas palavras e um sincero acolhimento às minhas análises literárias.
Óbvio, citei e exemplifiquei o determinismo cientificista de Euclides, o seu positivismo aprendido na Escola Militar do Rio de Janeiro, quando das aulas de Benjamim Constant.
Confesso que não foi fácil. Disse que a obra de Euclides da Cunha é um manancial inesgotável. Quanto mais nos aprofundamos em seus escritos, maior admiração nos provoca. A sua figura polimorfa cresce e se agiganta quando nos aproximamos e examinamos de perto cada um dos aspectos dos seus trabalhos. Se grande em seus detalhes, maior ainda quando a abrangemos em seu conjunto.
E a coisa foi por aí até o término, com os educados aplausos e as conseguintes perguntas. Uma jovem senhora, muito atenta, perguntou-me se além do Positivismo e do correlato Determinismo, haveria outro viés filosófico, por exemplo, em Os Sertões, obra maior do escritor fluminense.
Respondi que a intenção maior de Euclides, ao escrever este livro, foi o de defender “aqueles rudes patrícios”, os jagunços, distantes de nós, “civilizados do litoral”, por mais de duzentos anos, desenvolvendo assim, pela primeira vez na literatura brasileira, o conceito sociológico de demora cultural. E mais: que caberia à nacionalidade incorporar aqueles excluídos à nossa sociedade, em vez de exterminá-los. Que Euclides resumiria estes conceitos numa frase que se tornou antológica: “Por que não enviaram mestres-escola no lugar de fuzis? ” Mais ainda: que este comportamento poderia fornecer aos estudantes de Filosofia matéria de pesquisa, já que eu não conseguiria rotular essa defesa de inclusão social neste ou naquele rótulo filosófico.
A jovem senhora da plateia perguntou respondendo: “Não seria o Humanismo?”
Calei-me ante a obviedade da observação e refleti por segundos por que essa resposta tão clara, tão evidente, não me veio à verbalização.
Para mim, foi muito enriquecedor aquele encontro. E só depois dele, é que me dei conta de quanto deixei de falar, e sobre a importância do não falado.
Poderia ter respondido a questões formuladas por mim próprio.
Por exemplo: “Por que Euclides da Cunha?”
Porque sua obra é a preocupação com a organização social do Brasil. Como autêntico patriota ele denunciou o atraso social e econômico de várias áreas do país que viviam à margem da nação.
Porque com sua cultura e sua sensibilidade procurou nos sintonizar com a realidade brasileira.
Porque, de maneira mais específica, procurou conscientizar os brasileiros sobre a verdade do Nordeste, da Amazônia, da questão de nossas fronteiras e da necessidade de um maior entendimento entre as nações sul-americanas.
Porque defendeu, com coerência e convicção, o sentido de liberdade, individual e coletiva, que existe no contexto dos ideais democráticos da República.
Porque sua obra se tornou permanente dado o arcabouço estético literário, tão artístico e eloquente, constituindo-se numa das mais belas e originais páginas da literatura brasileira.
Porque sua obra, apesar de ter sido publicada em dezembro de 1902, ainda é atual quando fala da transposição do rio São Francisco, os dois Brasis, a corrupção na política, os desassistidos sociais, os sem-terra, os sem-teto, a pobreza marginalizada, a mortalidade infantil, a violência dos direitos sociais, a violência física, a impotência da virtude contra os vícios.
Porque, afinal, foi exemplo à juventude e aos adultos na dedicação aos problemas e ao destino de sua terra e de seu povo, com nobreza, com sinceridade, com honestidade intelectual.
E se tudo isso for a concepção de que a realidade consiste essencialmente de algo não material – a mente, os conteúdos da mente, a análise, a cosmovisão, os próprios sentimentos -, sugeriria que além do Humanismo, permeia toda obra euclidiana o Idealismo. Mas aí surgiria um ponto crucial contraditório, que mereceria a atenção dos que se dedicam ao estudo da filosofia, porque Idealismo tem três antônimos semânticos muito bem definidos: o materialismo, o realismo e a objetividade, o que não faltaram a Euclides em Os Sertões.
Aqui não se fecha esta página. Ao contrário: convida-se para um debate. Está aberta a questão.
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos
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