O problema do velho não é somente o fato dele ser velho. O problema do velho é que todos os seus amigos também são velhos.
Dias desses, recebi a visita de um velho e bom amigo. Uma dessas visitas agradáveis, sempre esperadas e sempre bem-vindas. Conversamos por mais de duas horas sobre variados assuntos. Falamos sobre os antigos carnavais, sobre as músicas que os animavam e sobre os bailes nos salões dos clubes que varavam a madrugada. Discutimos sobre a política interna e a externa, sobre o conflito na Ucrânia, a provável nova guerra da Criméia, os black blocs, a guerra civil na Síria, a queda nas Bolsas de Valores, a estranha revolta brasileira sobre a Copa do Mundo etc. Entre um café e um pão de queijo, falamos sobre os nossos filhos, os nossos netos, o custo de vida, a minguada aposentadoria, a falta de chuva, o perigo do racionamento de água e energia elétrica. Trocamos algumas impressões sobre as próximas eleições presidenciais e concordamos com o perigo de nossa cidade ficar sem representação na Câmara Federal. Conversamos ainda sobre o açúcar no sangue, a pressão alta, a taxa de ácido úrico, as dores lombares, os no
vos remédios, os médicos da moda.
Após uma breve pausa em nossas conversas, percebi que o meu velho e bom amigo não estava tão animado, como sempre esteve. Nem mesmo a sua tradicional teimosia fez-se sentir em nossos diálogos. Perguntei-lhe, então:
_O que há com você? Parece-me que está um pouco desanimado.
_Não, não estou cansado e nem desanimado. Eu estou com 80 anos.
_Oitenta anos?! Completinhos?!
_Sim, completinhos e bem vividos.
Confesso, prezado leitor, que até eu fiquei assustado com a idade do meu amigo. Na convivência diária a gente não percebe que o tempo passa muito depressa e que os nossos amigos envelhecem. Para estimulá-lo, eu disfarcei o meu espanto e disse-lhe com muita sinceridade:
_Mas, você não parece que tem 80 anos. Você está muito bem conservado. Garanto que, se eu enxergasse, não lhe daria mais do que 75.
E assim terminou a visita do meu velho e bom amigo, a qual espero receber de novo, ao menos pelos próximos 20 anos.
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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