A discriminação contra a mulher, em todos os aspectos da vida, foi colocada no centro da discussão nos últimos anos. A partir da década de 1980, quando o Estado de São Paulo criou a Delegacia da Mulher (hoje Delegacia de Defesa da Mulher), uma série de instrumentos foram criados para reduzir a discriminação que sempre colocou a mulher como inferior, vítima calada da violência, relegada à cozinha, ao fogão e aos empregos com salários inferiores ao correspondente masculino. As conquistas das mulheres nas últimas décadas expuseram a sua capacidade e condições de ombrear com os homens em todos os setores: trabalho, esportes, pesquisas... Em tudo, mesmo.
Agora, uma pesquisa realizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que o brasileiro mantém um conservadorismo que não cabe mais nos dias atuais. Embora o ponto principal do levantamento mostre que a maioria dos brasileiros concorda com a ideia de que marido que bate na esposa deve ir para a cadeia, outras respostas, porém, deixaram surpresos os próprios pesquisadores. O trabalho se baseou na entrevista de 3.810 pessoas, residentes em 212 municípios no período entre maio e junho do ano passado. Ao mesmo tempo em que 91% dos entrevistados concordam total ou parcialmente com a prisão dos maridos que batem em suas esposas, na contramão, 63% dos entrevistados disseram concordar com a ideia de que ‘casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre membros da família’.
Mas o que causou maior espanto entre os próprios pesquisadores foi o fato de que 65% disseram concordar com a frase ‘mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas’, algo que deixa claro para autores do trabalho a forte tendência de culpar a mulher nos casos de violência sexual. Para os pesquisadores, um número significativo de entrevistados parece considerar a violência contra a mulher como uma forma de correção. A vítima teria responsabilidade, seja por usar roupas provocantes, seja por não se comportar ‘adequadamente’.
A avaliação tem como ponto de partida o grande número de pessoas que diz concordar com a frase: ‘se mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros’. O trabalho indica que 58,5% concordam com esse pensamento. A resposta a essa pergunta apresenta variações significativas de acordo com algumas características. Residentes das regiões Sul e Sudeste e os jovens têm menores chances de concordar com a culpabilização do comportamento feminino pela violência sexual.
É uma situação que já não cabe nos dias de hoje. Até quase ao final do século passado (ainda nos anos 1970), havia um instrumento jurídico que livrava assassinos de mulheres. Na maioria dos casos, maridos, amantes e namorados matavam ‘em legítima defesa da honra’ e conseguiam evitar a prisão. Em pleno século XXI, a discriminação à mulher -- e às minorias -- não cabe mais. A questão cultural continua, alimentada que foi ao longo dos séculos e que se tenta modificar. É difícil, mas espera-se que pelo menos em médio prazo este quadro lamentável mude, para o bem de todos nós, homens e mulheres brasileiros.
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