Vamos lá. Cito Platão. Para ele, o tempo é “a imagem móvel da eternidade.”
- Bonito!
- Bonito, complexo e poético. Platão achava que o tempo reproduzia no movimento dos planetas, das estações, das gerações vivas a imutabilidade do que é próprio do ser eterno,
- Ora, se o presente é eterno...
- É isso. Aí está a eternidade, o tempo inserido num infinito contínuo de durações.
- Hum, muita filosofia para meu gosto.
- Na verdade, apontei apenas um pensador. A respeito do tempo existem ainda belas frases armadas por artistas não necessariamente filósofos, mas filosofantes.
- Já vem Euclides da Cunha por aí. Ou Machado de Assis...
- É claro; em língua portuguesa ninguém supera Machado. Começarei com a repetida frase de Memórias Póstumas: “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.” Há muitas mais, porém que citarei sem indicar o livro:
“A velhice ridícula é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.”
“Dormir, que é um modo interino de morrer.”
“O tempo é um roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outra forma.”
- Chega de Machado de Assis. Vamos a outros autores.
- Nacionais ou estrangeiros?
- Estrangeiros, nacionais, antigos, modernos, desde que falem do tempo como eterno fluir.
- Então vou à Bíblia, a primeira e mais bem-sucedida obra coletiva:
“Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer, e tempo de morrer, tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar e tempo de edificar”... (Eclesiastes)
“Pois mil anos, aos teus olhos (=aos olhos de Deus), são como o dia de ontem que se foi.” (Salmos)
Depois passo aos clássicos, antigos ou não:
“O tempo, esse devorador das coisas.” (Ovídio)
“Ó tempos, ó costumes!” (Cícero)
“Os tempos mudam e nós com eles.” (Autor incerto)
“Perdido está todo o tempo que em amor não se gasta.” (Tasso)
“O tempo o mesmo tempo de si chora.” (Camões)
- Este verso de Camões me pareceu de interpretação muito difícil.
- O poeta usa de um recurso, a personificação, como se o Tempo deplorasse o tempo que perdeu.
- Esses poetas inventam cada coisa!
- Mas não esgotei a lista de citações que andei selecionando a propósito do tempo:
“As pessoas comuns preocupam-se apenas em passar o tempo; as que têm um talento qualquer, em utilizá-lo.” (Shopenhauer)
“O chão que pisamos parece que não se move. O mesmo acontece com o tempo na vida.” (Proust)
- Não foi este que inventou em busca do tempo perdido?
- Foi, e não o encontrou direito, apesar dos seis volumes dessa obra muito mais citada do que lida. Só o primeiro volume, No Caminho de Swann, deu um longuíssimo filme, daqueles de metade do público sair na primeira meia hora. O mesmo Proust disse do tempo:
“Elástico é o tempo de que dispomos cada dia: as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiram o encurtam e o hábito o enche.”
Alguns autores fazem piadas com o tempo:
“Preciso de tanto tempo para não fazer nada, que não me sobra bastante para trabalhar.” (Reverdy)
“Não somos nós que perdemos o tempo. É o tempo que nos perde.” (Mário da Silva Brito)
“Time is money – especialmente para os donos da revista Time.” (Eno Teodoro Wankw)
Mais triste é Jules Petit-Senn: “O que o tempo traz de experiência, não vale o que leva de ilusões.”
- Ufa! Chega de falar de tempo!
- Copiar pensamentos alheios é fácil e logo toma a página toda. Deixei por último a frase que liga tempo, eternidade e a própria necessidade de Deus: “Todos sabemos que alguma coisa é eterna”. “Não os nomes, nem as casas, sequer as estrelas... Todo mundo sabe, em seu íntimo, que algo é eterno, e que esse algo nos diz respeito.” (Thornton Wilder)
E com essa, vou ficando por aqui. Enquanto é tempo.
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos
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