Voltava de um Encontro, em São Paulo, no MASP, que tinha como tema o Tempo na Filosofia, na Psicanálise, na Música. Encontro comemorativo do lançamento da Revista, de nome sugestivo, Calibán, da Federação de Psicanálise da América Latina, FEPAL - instituição que agrega Associações Psicanalíticas da IPA, as do hemisfério sul. Os brasileiros, ilhados e imponentes em um continente, de língua portuguesa, com os países de língua espanhola, com rica história e cultura a compartilhar.
A Avenida Paulista é emblemática, linda, para mim que tinha acabado de assistir a um show de pai e filha, Arthur Nestrovski e Lívia Nestrovski, em um repertório musical admirável, entremeado de boas palavras. Dizia Nestrovski dos três tempos na música: 1. a Duração das notas; 2. o Andamento da música (cadência); 3. a Disponibilidade que a música cria, em quem escuta e em quem a produz, criação da eternidade.
Estava flanando pela avenida, seguindo o batuque do meu coração. Via casais, bebês, cachorros, esteiras no chão com badulaques. Parei para conversar com Nádia, camelô, que dizia difundir a cultura brasileira, e comprei dela uns brincos de capim dourado, uma corujinha marrom e bege em fio trançado (colar) para usar como marcador de livro.
Vi um Elvis Presley, vestido como no lendário show de Las Vegas, mobilizando um pequeno público, cantando e dublando o Rei. Tentei ouvir o que dizia o Elvis brasileiro, entre as músicas, nas palavras cantadas em portinglês; ele queria cantar, mas também se dizer. Elvis morreu em 1977. O que ele significa para o cantor de rua, aparentemente nascido depois de sua morte? Que marcas o cantor deixou na existência do paulistano, que o mimetiza? O que imortalizava aquele rapaz, com microfone, às 16 horas de um sábado paulistano, reencarnando a lenda, com uma latinha colocada defronte o tapete-palco de sua apresentação, para quem quisesse pingar o “curtir”. Todos sorriam, alguns balançavam a cabeça. Atravessei a Avenida, em direção à Livraria Cultura, tempo de encontrar minha filha, combinado prévio.
Como marcamos a vida das pessoas? Como elas nos marcam?
Tempo é um complexo de pensar/sentir/compreender: duração, medida, tempo psicológico, tempo real, mescla de momentos significativos, ressonâncias significativas. Também uma convenção, mais concreto no antes e depois do vivido, cronometrável momento. Dificilmente detectável no momento de sua passagem, no durante.
Bom se dar tempo de presente. Dê-se e seja.
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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