Dezenas de anos consumidos e as mesmas conversas, convicções, casos, acontecidos ou inventados, amantes imaginários e, nenhuma novidade, somente o muito velho ou mentiroso.
sentada sobre tantos anos inócuos de delírios não realizados, sequer tentados, a anciã não se resigna ao ostracismo construído entre tantos fracassos, por metas não lutadas, ilusões não desenvolvidas, e não cede à realidade esbugalhada do presente.
a aposentadoria compulsória chegara quase sem aviso e mesmo sem desejo. mas não a arrancou dos devaneios de verdades incontestes. dentro de sua idiossincrasia imutável, apesar do desmoronamento ao redor de todas as suas teses, permanece no particular reduto, num indesejável exílio concedido por antigos pares que não mais suportavam seus arroubos.
no princípio sentiu que algo diferente acontecia, quando as colegas não mais promoviam reuniões, saídas, e, até mesmo, festas etílicas, onde todas se soltavam e se sentiam importantes, e ela mais que todas.
descobriu mais tarde que as efemérides continuavam, mas apenas ela não era mais convidada.
alguém a alertou que o monopólio de suas histórias, sempre as mesmas, e, de tanto serem as mesmas, por vezes enxertadas com duvidosos detalhes, contradições, descarados remendos, onde não existia sequer um broto de verdade, havia afastado todos paulatinamente, à medida que, adicionalmente, rotulava qualquer divergente, presente ou ausente, de néscio; termo que a fascinava e usava com frequência, como síntese do seu juízo.
de pronto decretou que todos eram mesmo néscios. continuou com seus mirabolantes projetos, sem ter muito presente pela frente, nos quais pudesse se sustentar.
Assim, sem delicadeza, permaneceu com nada de novo para contar, nenhum projeto para tocar, nenhum rebento para visitar, considerando todas as parideiras néscias por vocação, nenhum neto desvalido para amparar, nada que pudesse motivá-la a romper com a mentira rotunda que blindava com seus fracassos.
assim, encarquilhada em tantas verdades absolutas, passara todos os anos a construir nada de novo, apenas a solidão dos néscios.
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.