Servidores municipais param Franca


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Manifestação dos funcionários municipais tomou as ruas do Centro
Manifestação dos funcionários municipais tomou as ruas do Centro
Reportagem de Edson Arantes, Tarissa Esteves e Thamara Pimenta
 
O contestado governo de Alexandre Ferreira (PSDB) enfrentou, ontem, um abalo sem precedentes. Centenas de servidores demonstraram descontentamento com o prefeito e decidiram cruzar os braços. Não há relatos de uma paralisação tão grande na Prefeitura. O sindicato da categoria estima que em torno de 1,2 mil pessoas tenham participado dos protestos por melhores salários. O foco das manifestações se deu diante do Paço Municipal, onde foi formada intensa concentração. Cartazes e palavras de ordem contra o prefeito deram o tom da indignação. Ruas precisaram ser interditadas (leia texto na página ao lado). A greve afetou escolas, unidades de saúde, setor de obras, assistência social e atendimento ao público em geral. Apenas serviços essenciais foram mantidos, mesmo assim, com a capacidade de atendimento reduzida. Os grevistas vão continuar parados e prometem aumentar a adesão ao movimento nesta terça-feira. A demonstração de força e união dos trabalhadores não sensibilizou o prefeito, que segue irredutível em relação à possibilidade de conversar e avançar nas negociações.
 
Os servidores cumpriram a promessa feita na semana passada e pararam Franca ontem. De acordo com o presidente do sindicato, Fernando Nascimento, cerca de 70% dos funcionários municipais cruzaram os braços. A paralisação afetou boa parcela dos serviços públicos e, consequentemente, da população.
 
Escolas
Segundo Nascimento, pelo menos 15 escolas municipais não abriram as portas ontem. O Comércio encontrou fechadas as escolas “Milton Alves Gama”, no Paulistano; “Maria Avelar Meneguetti”, no Bueno; “César Augusto de Oliveira”, no Brasilândia; “Aldo Prata”, no City Petrópolis; “Frei Lauro de Carvalho Borges”, no Éden; “Rubens Zumsteim”, no Piratininga; e “Professora Maria de Lourdes Lima Pelizaro”, no Aeroporto I. Na escola “Professora Maria Antônia Stevanato Reis”, no Paraty, pais e vans também tiveram que retornar com os alunos para casa. Ao chegarem na escola, foram orientados a se dirigirem para a quadra, onde receberam orientações.
 
“Falaram que o prefeito tem que dar uma solução e orientaram a gente a ficar atenta ao rádio e ao jornal para saber se a greve vai continuar ou parar”, disse a mãe de uma das alunas, Rosângela dos Santos. Segundo uma funcionária da escola, as professoras foram à unidade no período da tarde apenas para avisar que aderiram à paralisação.
 
As merendeiras que trabalham nas escolas estaduais, que são funcionárias do município, também interromperam os serviços ontem. A mãe de uma aluna da escola estadual do Jardim Luiza I disse que a filha ficou sem merenda nesta segunda-feira. A merendeira Maria de Lourdes Mafas participou da manifestação e disse estar revoltada com a forma como a merenda foi improvisada na escola onde trabalha, no Jardim Petráglia. “Quem fez comida lá hoje foram as serventes, elas são do Estado. Isso está errado. Tem que dispensar os alunos, porque acredito que enquanto não parar tudo mesmo, o prefeito não vai arredar o pé.”
 
Saúde
Segundo fonte ligada à Rede Pública de Saúde, todas as UBS (Unidades Básicas de Saúde) ficaram fechadas no primeiro dia de manifestação. O Comércio percorreu cinco unidades (Planalto, Ângela Rosa, Paulista, Paulistano e Leporace) e confirmou a interrupção do serviço. Na UBS 24 horas do Aeroporto I, um cartaz informava que apenas os casos de urgência e emergência seriam atendidos. No período em que a reportagem esteve no local, quatro crianças foram embora sem serem vacinadas. “Meu filho faz dois meses hoje e tinha que vacinar, mas disseram que só atendem urgência e emergência. Como vai fazer? Está tudo parado!”, disse Ana Paula Roberto de Almeida.
 
Na manhã de ontem, o atendimento no Pronto-socorro Infantil estava, segundo uma enfermeira do local, “um pouco mais lento”, mas praticamente todos os funcionários estavam trabalhando. Ao Comércio da Franca, os pais reclamaram, principalmente, do barulho feito pelos manifestantes. “Sou a favor da greve, mas não na porta do hospital. Tem várias crianças doentes lá dentro”, disse o sapateiro Inácio Lemos ao deixar o PSI com seu filho.
 
Já no Pronto-socorro Municipal “Álvaro Azzuz”, a situação chegou a ficar tensa. Com o atendimento direcionado apenas aos serviços de urgência e emergência e poucos funcionários, pacientes formaram uma longa fila na esperança de serem atendidos. “Meu rosto inchou e está doendo o ouvido, a cabeça. Então vim ver, porque a gente fica preocupado, mas aqui ninguém fala nada. Estou há mais de uma hora esperando nesta fila”, disse o mecânico Flávio Ribeiro.
 
Irritados com a demora no atendimento, pacientes se envolveram em uma confusão com representantes do sindicado e alguns guardas civis municipais. Houve troca de socos e empurrões, mas a confusão foi logo controlada.
 
Na Polícia Civil, duas ocorrências foram registradas contra o PS Infantil. Pais de duas crianças, de um ano e meio e quatro anos, que apresentavam febre e diarreia, fizeram BOs após não conseguirem atendimento aos filhos.
 
Outros serviços
De acordo com Nascimento, funcionários das secretarias de Obras, Segurança e Cidadania, Cras (Centros de Referência Social), Samu (Serviço Móvel de Urgência), Parque “Fernando Costa” e do Paço Municipal também aderiram à paralisação.
 
Nascimento espera que mais mil servidores adiram ao movimento hoje. “A greve continua. Hoje (ontem) não tivemos a grata satisfação do prefeito (Alexandre Ferreira) conversar com a gente. Ele não nos procurou, não está acreditando na nossa greve e não está acreditando que o servidor está unido e a cidade parada. Amanhã (hoje) vamos chegar a um maior número de pessoas.”
 
Silêncio
Assim como não recebeu os servidores para dialogar, o prefeito Alexandre Ferreira também se recusou a comentar a greve. Ele se limitou a divulgar, por meio da assessoria de imprensa, nota em que afirma ter aceitado “todos” os pedidos apresentados pelo Sindicato dos Servidores, além de criar novos benefícios, como o cartão alimentação. Na verdade, não são “todos”, mas parte deles. 
 
De cartão alimentação, por exemplo, os servidores pedem R$ 400. A Prefeitura, porém, oferece R$ 200 e para começar a pagar apenas em outubro. Outro ponto é o reajuste salarial: trabalhadores querem no mínimo 10% de aumento, para compensar as perdas dos últimos 10 anos. Já o município oferece 5,39%.
 
A nota ainda afirma que “a Prefeitura espera que aqueles que aderiram ao movimento retornem o mais rápido possível aos seus postos de trabalho, para que a população e os próprios servidores não sejam prejudicados, garantindo os benefícios já pactuados com o sindicato”. Nenhuma proposta de melhoria foi apresentada.

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