A cabeleireira Neide da Silva não imaginou que pudesse conviver por tanto tempo com os mesmos problemas. Há 24 anos ela mora com o marido e os dois filhos em uma das casas populares do Parque do Horto e pelo mesmo período convive com difíceis situações que também incomodam a maioria das 3.500 pessoas que mora no bairro. As reclamações de Neide e de outros moradores do local e também de bairros adjacentes foram feitas durante o programa Hora da Verdade Itinerante, transmitido pela rádio Difusora AM ao vivo de uma praça do Horto no dia 14 de março. Aos jornalistas Leandro Vaz, apresentador do programa, e Corrêa Neves Júnior, comentarista, a população se queixou principalmente dos problemas causados por uma extenso terreno desocupado no “coração” do bairro, do trânsito de uma das principais vias do Horto e também da antiga polêmica que envolve as casas da Cohab.
O terreno desocupado fica em frente à UBS (Unidade Básica de Saúde). Nele uma placa informa que o local é uma área de lazer, mas esta não é a realidade. Neide, por exemplo, trata a área como um poço de problemas. “Desde que criaram o Horto tem aquele buraco lá. Há algum tempo eles mexeram, mas não vira nada. É muito sofrido morar perto de uma área desse jeito, tão abandonada.”
Os 700 metros de extensão do espaço acumulam mato alto, bichos peçonhentos, lixos e representam perigo para quem o utiliza como passagem, mas para Neide, ele poderia contribuir para a solução de outras duas reivindicações da população do bairro: a falta de áreas de lazer e a organização do trânsito na rua Luiz Belchior. A via, que atravessa o Parque do Horto e tem constante circulação de pedestres e veículos porque liga o Horto ao Vera Cruz e ao Santa Terezinha, é palco de constantes acidentes já que os pedestres são obrigados a disputar passagem com os veículos.
“A Luiz Belchior tinha que ser mão única, só para descer. Para subir os motoristas utilizariam a rua de cima, mas para isso seria necessário uma rotatória que não tem como ser feita porque o buraco impede. A revitalização desta área também podia contribuir para melhorar o lazer no bairro. Eles já revitalizaram áreas bem piores do que esta aqui. Gostaria muito de perguntar para o prefeito (Alexandre Ferreira) porque para nós não? Sofremos há 24 anos com este espaço”, disse Neide.
Calçadas
A Prefeitura começou a executar em outubro do ano passado o Projeto Calçada Segura, que visa construir ou recuperar o calçamento ao redor de espaços públicos, mas alguns pontos do Horto, que são utilizados pelas crianças no caminho para a escola, ainda não receberam reparos. Em outros pontos, como ao lado do “buraco” da rua Luiz Belchior, há calçadas, mas elas são estreitas e em algumas situações tomadas pelo mato.
Além da ausência de calçadas, os pais dos alunos reclamam da falta de faixas de pedestres nas proximidades da Escola Municipal “Professora Ana Rosa”.
Iluminação
A estrada de terra que corta o grande espaço desocupado do bairro também causa perigo devido a falta de iluminação. Segundo relatos de moradores, diversas pessoas já foram assaltadas no local que é muito utilizado como esconderijo por ladrões.
A falta de iluminação na rua Geraldo de Almeida, localizada ao lado da praça do Parque do Horto, também é alvo de reclamação. No local há apenas os postes das praças que não são suficientes, segundo os moradores, para iluminar toda a área.
Coleta de lixo
Alguns moradores do City Petrópolis, bairro vizinho ao Parque do Horto, participaram do Hora da Verdade Itinerante do último dia 14 e reclamaram, principalmente, da coleta seletiva. De acordo com a dona de casa Ana Cláudia Melo, algumas caçambas utilizadas pelos moradores dos predinhos do CDHU foram destruídas. Arrumaram então locais alternativos para depositarem o lixo. Moradores de um dos blocos arrumaram uma carcaça de geladeira para servir como caçamba, mas recentemente um caminhão de coleta de lixo reciclável levou a caçamba improvisada embora. Em outro bloco, os moradores têm amarrado as sacolas de lixo nas árvores. “Não é porque moramos na periferia que somos obrigados a conviver com o lixo. Liguei no número de reclamação, a moça disse que estava anotando a reclamação, mas não disse se tomaria providências”, disse a moradora.
Cass da Cohab
Há mais de 20 anos, a situação das casas da Cohab no Parque do Horto gera problemas. Parcelas caras, juros altos e dificuldades em renegociar a dívida com a Cohab persistem na vida dos mutuários. Ao longo dos anos, várias pessoas já foram despejadas. No programa Hora da Verdade Itinerante, o aposentado Nilson relatou o problema que vem enfrentando desde 2007.
Ele afirma que comprou o imóvel de terceiros, comunicou a compra à Cohab e pagava uma prestação de R$ 101 por mês, mas o valor triplicou. “Sobrou para mim a dívida. Foram só subindo as prestações e hoje está neste preço.”
O presidente da OAB/Franca, Ivan Cunha, acompanhou e participou do Hora da Verdade no bairro e, de acordo com ele, quando o mutuário adquire o imóvel e comunica à Cohab ele assume a dívida. “A compra é legal desde que a Cobab tenha sido comunicada, mas é necessário ver o fator da correção, ver o que está sendo corrigido para evitar distorções.” Depois do programa, a OAB montou uma comissão para estudar os casos de mutuários do do Horto.
O Comércio entrou em contato com a Cohab de Ribeirão Preto e, segundo o chefe do atendimento financeiro, Edmilson Roberto, a difícil situação das casas da Cohab no Horto se deve a uma série de fatores: negociações mal feitas, acúmulo de dívidas, invasões aos imóveis, entre outros. “Orientamos a não fazer nenhuma negociação de compra ou venda sem procurar a Cohab para saber a realidade do imóvel. Estamos tentando regularizar a situação do bairro, mas não é fácil.”
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