Já ouvi, algumas vezes: “queria ser menos sensível” e, em seguida, “sou muito fraco(a)” (por ser sensível). Costuma-se usar a palavra sofrer, pelo menos em português, para a dor, para o sofrimento, substantivo originado do verbo. No entanto, a sensibilidade é uma rica capacidade de sintonizar sensações, sentimentos, emoções, e, como na aquisição do conhecimento, é possível e fundamental aprender com elas. Para isso é preciso experenciá-las, não se trata de falar sobre as sensações, ou sobre os sentimentos, mas senti-los. A sensibilidade não é eletiva, não passa pela consciência como uma escolha a ser feita. Sente-se ou é-se sentido triste, alegre, ciumento, solidário. A sensibilidade é um sol noturno que banha igualmente todos os objetos e pessoas que guardamos no esconso da alma.
Como florescem, como nos apropriamos das sensações, dos sentimentos? Caminho misterioso. Eles sofrem transformações, no trajeto ao conhecimento florido, como a semente cravada na terra. A semente tumefaz, vai se auto-criando, complexamente, em meio propício: os elementos são absorvidos, digeridos, incorporados, até que a planta se mostre na exata e prometida proporcionalidade. Uma misteriosa alquimia. Na absorção, digestão, incorporação de impressões táteis, visuais, olfativas, auditivas, palatáveis, alguns elementos adquirirem cor e forma de algo que alcançamos nomear - com sorte e talento – se somos letrados (não somente alfabetizados funcionais) em emoção: alegria, tristeza, inveja, esperança.
Não há sentimento puro. Há na alegria uma pitada de tristeza, de soberba, triunfo ou orgulho, e também de humildade ou reconhecimento envergonhado, culpado. A gente sente a diamantina alegria, mas há nela impurezas agregadas. Sabemos, ou intuímos a tal da alegria, sem conhecimento da sua origem e composição. Costuma-se, por exemplo, confundir tristeza, belo sentimento, com depressão, que é estado patológico. Poucos percebem na depressão o sentimento de ódio, sentimento ausente da tristeza, que mata os vínculos amorosos e enterra o entusiasmo e o prazer de viver.
Importante é atribuir significado ao sentimento, ou à sensação, que nos confere força e flexibilidade no seu uso. Assim temos a sabedoria: usamos o que nos vem das entranhas. Sentimentos, sensações, são ventos, incontroláveis. Mas se temos velas, atentos na roda do leme, não há o que temer. O corpo-barco singra, sangra, o mar aberto, dolorosa e prazerosa mente.
Funcionamos assim, em dois tempos, ritmados: cognição e sentimento. Onde conseguir maior potência, força?
Conhecedores do mapa da nossa sensibilidade somos atletas psíquicos: entusiasmados, criativos, sustentados pelo Desejo. Intensa-mente. Forte-mente.
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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