O trabalho realizado ao longo de uma década tem dado frutos à escritora francana Vanessa Maranha. Seus contos, escritos neste período, se uniram na construção do livro Oitocentos e Sete Dias, obra que vence agora seu segundo concurso, o X Prêmio Barueri de Literatura. Mesmo já tendo vencido o Prêmio Ufes de Literatura, a escritora afirma que a repercussão da obra não estava prevista por ela. ‘Esse livro teve recepção efusiva fora daqui (Franca), o que eu não esperava. Foi destacado por um grupo de leitores do Rio de Janeiro, outro em São Paulo; foi alvo de um longo ensaio acadêmico em Fortaleza (CE), por exemplo, gente que o leu e entrou em contato depois’, disse ao Comércio. ‘Eu acalantei esse livro desde o seu início, tinha simpatia pela sua forma de conduzir o leitor, pelo modo como foi editado.’
Sobre a escolha do título inusitado, Vanessa elenca seus motivos. ‘Eu o escolhi pela sonoridade, há algo de solene, menos cardinal, em dizer ‘oitocentos e sete’... Bem, falando sério, refere-se à ideia implícita e auto referente que eu queria transmitir de tempo, maturação, de textos que foram amadurecendo na ‘gaveta’, eu sempre voltava a eles. Não se deve publicar com pressa. Mas é também o título de um dos contos.’
Além da grande repercussão, trinta mil reais e a venda de múltiplos exemplares à organização do Prêmio Barueri - que os distribuirá nas dez bibliotecas de Barueri (SP) - foi o prêmio conquistado por Vanessa.
Confira o bate papo com a escritora.
Ver o Oitocentos e Sete Dias como vencedor do X Prêmio Barueri de Literatura foi uma surpresa ou era algo esperado?
Um prêmio é sempre uma surpresa, quando vem. O que o autor faz, ao escrever, ao submeter o livro à leitura, ao inscrevê-lo em certames, é uma aposta baseada na sua crença de que algo nesse material valha a pena. Pensava que sim, havia potencial, porque o concebi como uma forma de crítica literária. E isso não é novo em literatura. Ezra Pound dizia, em O ABC da Literatura, que ‘a maior crítica a uma obra de arte é outra obra de arte.’ Em 1879, Machado de Assis fez a crítica a O Primo Basílio com a criação de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Com Oitocentos e Sete Dias eu não pretendi ir tão longe, fazer a crítica de uma obra específica, mas aclarar uma concepção literária, vários modos possíveis de contar histórias. Houve um tempo em que publiquei muitos textos críticos aqui no Comércio e em revistas eletrônicas fora de Franca, mas é um percurso natural transpor a crítica literária para a produção de uma obra, escrever um livro como um modo de apontar e talvez encontrar ou renovar caminhos.
Que caminhos você quis apontar nesta obra?
O Oitocentos e Sete Dias teve um percurso curioso. Buscou sintetizar a minha produção ficcional/contística da última década. Nele eu quis registrar a experimentação de formas, os avanços, as digressões; momentos em que acreditava que um texto devesse se sustentar mais sobre a forma do que sobre o conteúdo; noutros momentos, eu buscava relevo na história, no conteúdo. Tanto que o dividi em duas partes, para destacar tais momentos, separando também temáticas atemporais de temáticas contemporâneas, depois, misturando isso tudo.
Ainda sobre críticas, há alguma - ou comentário - que tenha marcado sua memória?
Sonia Machiavelli, escritora e leitora a quem reverencio, destacou algo que eu não havia percebido nesses contos: a epiderme sempre ali, descrita em vários tons, como capa paradoxal que reveste e oculta. Luiz Cruz escreveu que a obra, de certa forma, parecia inaugurar um gênero literário. O meu pai, Aurélio Maranha, crítico implacável, o leu ao longo de uma tarde e elogiando a diversidade das formas e enredos, sentenciou: ler esse livro foi como andar de montanha russa, Isso coincidiu com a impressão que a revista de literatura luso-brasileira Pessoa (na qual já colaborei) publicou, ‘uma obra com ritmo vertiginoso’; registro que também aparece na introdução escrita por Menalton Braff. William Lial, mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Fortaleza, destacou, em extenso ensaio, ‘o peso de existir em Oitocentos e Sete Dias.’ Era isso o que eu queria. Não um livro calmante, mas um livro que trouxesse movimento, que remexesse dúvidas no leitor e não respondesse, que deixasse espaços em branco para que esse leitor fizesse as suas próprias elaborações.
Como tem sido a repercussão do livro e a abordagem do público leitor nas redes sociais, onde temos observado grande interação?
Muito boa. Várias pessoas entram em contato, comentam publicamente. As pessoas festejam o acontecimento, se encorajam em se aproximar e falar mais alongadamente, isso é muito gratificante. Afinal, quem escreve busca o outro; a literatura só se perfaz com o leitor. Mas é preciso estar atento à forma de uso das redes sociais. São veículos de divulgação e circulação, mas a sua impermanência e potencial de simplificação, no sentido de vulgarizar e tornar questões interessantes em ditos simplórios são avassaladores, pela rapidez com que se sucedem e se substituem as novidades, algo que pode se aproximar da neofilia, no sentido patológico. Tem-se a impressão de articulação e interação, mas, se você ler a fundo, verá monólogos, ou publicidade, marketing pessoal. Sem falar na capacidade que as redes sociais têm de nos distrair, alterar o foco. De todo modo, em todo o seu panfletarismo e vontade de democracia, não deixa de ser divertida a rede social e cumprir o seu papel de rápida divulgação.
Quais personagens e contos têm se destacado?
Ludmila, Klaus e Antenor são os mais festejados. São personagens que, pelos reveses, enternecem os leitores. Alguns se chocam com o conto pelo jade daquele mar parati; muitos se identificam com Peter e Claire; outros exaltam a despudorada Adelícia.
A predileção dos leitores tem coincidido com a da autora?
Sim, sou ‘mãe’ deles, amo todos, com as eventuais afinidades, maiores em relação a uns, menores, em relação a outros. Tenho um arquivo no computador com os ‘rejeitados’, aqueles de quem não gosto ou não considero apresentáveis, que ficaram de fora. Mas é interessante como eles (os textos e os personagens) ganham vida dentro do autor. Às vezes volto num personagem, penso em lhe dar novo rumo, mais movimento, dedicar-lhe melhor tempo ou mais cuidado, mas as outras criaturas em gênese os atropelam, escritores sofrem de uma boa dose de neofilia, tentam reparações pela criação do novo.
A sua produção é frenética e, em nossa última entrevista, você revelou ter romances e contos prontos para publicação. O que pode adiantar sobre seu próximo lançamento?
Os meus próximos lançamentos serão os livros Quando não somos mais, um volume de contos premiado pela Universidade Federal do Espírito Santo, no Prêmio Ufes de Literatura 2013/2014 e o meu primeiro romance Contagem Regressiva, que deverá sair também em maio pelo Selo Off Flip. Quando não somos mais é um livro sobre o amor na indiscrição das suas formas. Do que deixamos de ser ou quando não somos bastantes. Páginas de amores urbanos inventados; o amor agonizante; o amor entre iguais; os amores vadios; os amores tóxicos sombreados pela melancolia, anverso da alegria escandalosa que o grande amor traz em si. É um livro que toca naquela transição dolorida entre a juventude e a maturidade, da qual cada vez mais tentamos, ‘adultescentes’, fugir. Está na fase do projeto gráfico de capa. Contagem Regressiva, o meu primeiro romance pronto para publicar, ao qual eu chamaria de novela, é um livro curto, mas igualmente acalantado. Foi escrito e reescrito várias vezes, fui tentando fazer dele aquilo que em termos gastronômicos chamamos de ‘redução’. Não é uma obra linear. De novo, fala da temporalidade, esse meu tema caro, quase obsessivo. Trata da velhice, a juventude fugaz e a infância de um homem, metaforizando as estações do ano. Eu me desafiei ao exercício de escrever sob o ponto de vista de um homem, no diapasão marcadamente diferenciado, no discurso da infância e da velhice. A infância vem na última parte do livro e explica, de certa forma, a primeira. Esse livro está em fase de leitura crítica. Deve ser lançado em meados de maio, talvez junho.
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