“Se não negociar, a cidade vai parar.” O recado dado por centenas de servidores ao prefeito na abertura da sessão de ontem da Câmara foi claro. Há tempos, o plenário não ficava tão cheio. Funcionários da Prefeitura usaram nariz de palhaço, apitos, vaiaram e fizeram muito barulho para protestar contra o reajuste salarial de 4,97% proposto por Alexandre Ferreira (PSDB). Pediram à Câmara que não aprovasse o projeto apresentado pelo Executivo. A pressão surtiu efeito. Nenhum vereador se dispôs a defender o governo. Por unanimidade, a votação foi adiada por duas semanas. Foi uma estratégia para que a categoria tenha mais tempo para negociar e tentar obter um ganho maior. “A greve é uma possibilidade. Se as negociações não evoluírem, podemos cruzar os braços a qualquer momento”, afirmou Fernando Nascimento, presidente do sindicato.
Foi uma sessão tensa. As discussões sobre o tema se arrastaram por duas horas e meia. Por duas vezes, o presidente Jépy Pereira (PSDB) suspendeu os trabalhos até o público se acalmar. Houve bate-boca entre manifestantes e o vereador Marco Garcia (PPS). O assessor-legislativo do prefeito, Edvaldo Costa, também discutiu com Adérmis Marini (PSDB), após acusá-lo de ser o responsável pela tentativa frustrada do governo em passar o projeto.
Não havia o menor clima - nem interesse - para a aprovação. Cerca de 300 pessoas foram à Câmara pressionar os vereadores a não votarem. O Sindicato dos Servidores reforçou o pedido da categoria na tribuna. “Estamos aqui para repudiar a proposta apresentada pelo prefeito. É uma falta de respeito e de dignidade. Recursos há. O problema é a má-gestão. Não podemos ser prejudicados por isso”, disse o presidente, que pediu aos vereadores que rejeitassem ou adiassem o projeto.
Em seguida, foi dada a oportunidade para o secretário municipal de Administração, Humberto Mazza, defender a posição do governo. Ao ter o nome anunciado, foi recebido com uma sonora vaia. Mal conseguiu falar. Ele disse que o índice de correção usado pelo prefeito é estipulado por lei e que a folha não comportaria um reajuste maior. Foi interrompido por mais vaias.
O presidente Jépy Pereira suspendeu a sessão. Trinta minutos depois, os trabalhos foram reiniciados e Mazza voltou à tribuna para ler um documento em que o prefeito afirmava estar de acordo com várias reivindicações feitas pelos servidores. Foi ignorado pelos manifestantes, que ficaram de costas. Márcio do Flórida (PT) saiu do plenário. “Me retirei em solidariedade aos servidores e em protesto ao prefeito que se recusou a receber a comissão de vereadores.” O vereador petista fez críticas ao discurso do secretário. “Ele disse uma inverdade gritante. Não tem lei municipal especificando qual índice deva ser usado. O Mazza leu o que foi falado na última assembleia. Não acrescentou nada.”
Quando as discussões pareciam ter acabado e todos esperavam que a votação fosse realizada, Marco Garcia (PPS) pôs lenha na fogueira. Ele admitiu que o reajuste proposto pelo prefeito era baixo, mas provocou os manifestantes. “Gostaria de ter visto a Câmara cheia na época dos desmandos do PT.” Ele recebeu forte vaia, não conseguiu concluir a fala e abandonou a tribuna por causa do barulho. Discutiu com alguns manifestantes. O presidente voltou a suspender a sessão. Tempo depois, Garcia retornou à tribuna e disse que sua intenção era propor uma negociação conjunta com a Prefeitura. “Infelizmente, os servidores não esperaram a conclusão do meu raciocínio. Não me preocupo com vaias ou aplausos. Se eles não entenderam, paciência.”
Restabelecida a ordem, o pedido de adiamento do projeto, enfim, foi votado e aprovado com 14 votos favoráveis.
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