O jaleco rosa da ONG Voluntários da Saúde de Franca é um velho conhecido da população. Desde agosto de 2001 a organização se divide entre o Hospital do Câncer e a Santa Casa na prestação de serviços como oferta de lanches, apoio espiritual, confecção de próteses mamárias, doações de cestas de hortifrutis e outros. À frente desse ‘esquadrão’ solidário, que conta com cerca de 400 pessoas no atendimento de 1.400 pacientes/acompanhantes por mês, está Sonja Maria da Fonseca Gajardoni, 62, presidente da organização que este ano completa 13 anos de existência. O mandato de Sonja teve início no dia 6 de janeiro deste ano, mas ela desenvolve papel social na Voluntários desde 2004. “Comecei no setor de lanches. Já fui auxiliar na diretoria e vice tesoureira”, conta ela.
Nascida em Passos (MG) mas crescida em Presidente Prudente (SP), a gerente bancária aposentada da Nossa Caixa Nosso Banco (atual Banco do Brasil) teve uma vida nômade. “Meu marido, antes de se aposentar, também era bancário, então nos mudávamos muito. Quando não era ele a ser transferido, era eu. Tivemos uma vida de cigano.” Sonja é mãe de quatro filhos homens e todos estão casados. Ela tem sete netos.
Em entrevista ao Comércio, Sonja conta como enveredou-se pelos caminhos do voluntariado, alcançando a presidência de uma das maiores ONGs da cidade que atua num momento difícil das pessoas atendidas, quando travam a luta contra o câncer. A quem a história inspirar, basta ir até a sede da Voluntários da Saúde, que fica no Pavilhão “Onofre Trajano”, no Hospital do Câncer de Franca para se candidatar a voluntário. Os integrantes do grupo precisam reservar um dia da semana, durante duas horas, para os atendimentos aos pacientes e outros trabalhos da entidade.
A senhora assumiu recentemente a presidência da ONG Voluntários da Saúde de Franca. Qual sua proposta de novidade para esta gestão?
Estamos com uma promessa, em vias de concretização, de receber um terreno como doação. Ali nessa área pretendemos construir um centro para as artesãs do nosso bazar trabalharem. É dos trabalhos manuais que vem nosso maior recurso financeiro. São quatro oficinas em Franca que funcionam nas casas dos voluntários. Eles fazem todo o artesanato que é vendido no Grande Bazar, que acontece sempre na primeira sexta-
feira e sábado de novembro com artigos diversos. Hoje as voluntárias revezam os locais, nas suas próprias casas, para desenvolverem juntas o projeto, mas isso não é o ideal. No espaço, também pretendemos reestruturar e melhorar nosso almoxarifado.
Na opinião da senhora, quais os desafios deste cargo?
A missão é ser referência na Saúde como voluntária e fazer com que aja uma união para a humanização no hospital. Devemos incentivar os voluntários a servirem e alcançarem a nossa importante meta: não permitir que alguém se afaste de nós sem se sentir mais feliz. A presidente também deve estar atenta aos recursos da ONG: saber o que está faltando e correr atrás de parcerias para suprir a demanda. Não apenas eu, mas toda a diretoria.
A Voluntários da Saúde é conhecida por um rol de serviços que presta a pacientes com câncer e na Santa Casa. Atualmente, quais os trabalhos que vocês têm desenvolvido?
Temos hoje 14 setores em funcionamento: a recepção do Hospital do Câncer e da Santa Casa; a preparação e distribuição dos lanches; os três setores de promoção de entretenimento, que acontece nas alas de radio e quimioterapia, na hemodiálise e na pediatria. Trata-se do desenvolvimento de atividades para que os pacientes possam se distrair enquanto passam pelos tratamentos. Temos ainda a confecção de próteses mamárias, que nós fornecemos a todas as mulheres que passaram por mastectomia (retirada da mama) e o apoio espiritual, que é independente de denominações religiosas. Cuidamos ainda do setor de almoxarifado, responsável por receber e distribuir cestas básicas e outras doações; o espaço beleza, onde oferecemos cortes de cabelo aos pacientes para melhorar a autoestima; o espaço saúde, que distribui aos pacientes carentes, encaminhados pela assistente social, verduras, legumes e frutas. Inauguramos no ano passado o setor de nota fiscal paulista para coletar as doações em lojas e outros pontos de arrecadação e cadastrá-las; o de parcerias e doações, que promove ações como o Trote Solidário do Unifacef e o Troco Solidário da loja Havan e, por fim, o trabalhos manuais, que é o setor de artesanatos. Desde 2003, todo último sábado de agosto, nós realizamos ainda o Mc Dia Feliz. É uma parceria com o Instituto Ronald e todo o dinheiro arrecado é revertido para a ala infanto-juvenil do hospital. Usamos os recursos na compra de equipamentos para favorecer as crianças e adolescentes em tratamento contra o câncer.
Com esse leque de serviços, a ONG batalha para arcar com as despesas. Quais os custos de vocês atualmente?
É difícil precisar em virtude da grande demanda. Mas hoje, nossa média de custo é de R$ 12 mil por mês. Nossas fontes de recursos são o bazar que realizamos no fim de ano, doações dos sócios contribuintes, das parcerias, além de, claro, do trabalho voluntariado. Com frequência desenvolvemos campanhas e buscamos parcerias para suprir nossas demandas. Para se ter uma ideia, doamos um leite especial que custa cerca de R$ 45 a lata. O paciente consome seis latas na semana. E ele precisa, porque faz parte de uma dieta prescrita. 90% da população do HC vem do SUS e a maioria não tem condição de comprar esse alimento. A assistente social é quem faz a triagem e nos encaminha os que necessitam.
É uma tarefa complicada conseguir esse valor?
Não é tão fácil mas tem dado certo. O povo francano contribui bastante, mas cabe a nós criarmos canais para isso. Por exemplo, precisamos de perucas. Então estamos lançando uma campanha para doação de cabelo. Com apenas um dia de divulgação da campanha, já recebemos 72 cortes de cabelo.
Como a senhora se envolveu com o voluntariado?
Nunca havia me envolvido com o trabalho voluntário até conhecer a Voluntários da Saúde. Soube da ONG através de conversas com amigas e resolvi conhecer pessoalmente. Estou lá desde de 2004 e, quando comecei, fui para o setor de lanches. Não sabia aquilo que me esperava, mas achei que era uma coisa que poderia fazer. Me aposentei em 1995, mas em certo momento pensei que estava na hora de fazer alguma coisa pelos outros, para agradecer aquilo que a vida tinha me dado: muita saúde e filhos saudáveis.
Que retorno este trabalho que reúne cerca de 400 pessoas proporciona?
É prazeroso. Ver que podemos fazer bem a alguém é muito bom.
Mas neste trabalho, muitas pessoas entram e saem da sua vida: ou porque se curam e retomam as suas rotinas ou porque não resistem à doença. Como lidar com essas ‘perdas’?
É um exercício. Temos que dar carinho sem nos envolvermos com os pacientes. Nós devemos respeitar a individualidade deles, inclusive trabalhamos com sigilo. Não comentamos sobre a vida dos pacientes com ninguém, mas procuramos conviver bem com eles, de forma a sempre a ajudá-los. O que tentamos é separar as coisas: quando saio de casa, não levo os meus problemas aos pacientes; minha entrega é total a eles mas, quando saio do hospital e chego em casa, também não levo os problemas do hospital; minha entrega é total à minha família.
Qual o perfil dos voluntários?
A pessoa que quer ser voluntária precisa saber que deve haver comprometimento. Não adianta falar que quer ajudar, se candidatar mas depois não nos deixar contar com ela. As portas estão sempre abertas às pessoas comprometidas.
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