Retratos de uma vida


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A arte tem a generosidade de nos oferecer chances de reconciliação com o que é impensável, a possibilidade de tradução do que é indizível e a suportabilidade do que é doloroso. É sempre um grande privilégio termos de alguma forma um encontro com o artístico, seja ele do âmbito das artes plásticas, da literatura, da música ou do cinema.Sendo assim, inicio minha escrita com um convite a todos vocês, para compartilharem conosco, da comissão organizadora do Cinema e Psicanálise de Franca, a beleza da arte oriunda do cinema em parceria à arte elaborativa que a Psicanálise nos oferece.
 
Após vivências comemorativas dos cinco anos de nosso Projeto, abriremos o ano de 2014 com o interessante filme Basquiat: traços de uma vida, no Centro Médico de Franca, neste sábado, às 15 horas. A história retrata a trajetória deste renomado artista plástico. Contaremos com a riqueza dos comentários de Mércia Maranhão Fagundes – médica, psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto e São Paulo, e de Dante Velloni – artista plástico, professor universitário e mestre pela FAU-USP. Ambos vão levar ao público presente uma visão conjunta e complementar dos vértices tanto psicanalíticos quanto artísticos.
 
O filme traz a profundeza e essência de nossa vida mental. Thomas Merton escreveu que “a arte possibilita a nós nos descobrirmos e nos perdermos ao mesmo tempo”.
 
Um artista leva sua produção ao público, como fez Basquiat, pelas ruas de Nova York. Através de seus grafites, na década de 80, ele retratava rostos apavorados, corpos esqueléticos, cenas da vida urbana, como uma provável tentativa de expressão de seus conflitos mais íntimos. Traduzia e transformava seus sonhos (ou seriam pesadelos?) em realidade, através dos traçados coloridos, rabiscos, escritas e pinceladas de intensidade dolorosa, impressas nas paredes, no metrô de Nova York e, posteriormente, nas grandes telas dos conceituados museus, mundo afora.
 
Jean Michel Basquiat teria sido corajoso ao retratar seu caos interno e torná-lo público, ou seria uma saída para a incontinência de seus conflitos? Hanna Segal, renomada psicanalista inglesa, nos disse que “a feiúra da fragmentação e da devastação é transformada em objeto de beleza”, através da experiência estética.
 
Por várias vezes nos deparamos com o que não tem coerência e com o terrorífico que se apresenta de forma fragmentada e obscura, onde o tradicional é insuficiente para contê-lo e representá-lo. Basquiat precisa desconstruir a arte tradicional, o que é formatado e endurecido, para buscar representação de seus elementos sonhantes. Vemos na película duas imagens fantasiosas que representam os personagens internos do pintor: um surfista que surfa nas ondas do azul celeste, e um menino, em reencontro contínuo com a criança que o artista foi, na representação de um pequeno príncipe aprisionado numa cela, por toda a vida.
 
Assistindo ao filme, a primeira cena traz o personagem principal em sua infância, acompanhado pela mãe, em visita à expressiva obra Guernica, de Picasso. Assim nos é antecipada, logo no início do filme, uma sinalização de que a narrativa nos trará as dores da vida aos nossos olhos. Sofrimentos de todos nós, porque às vezes o que dói não é individual, é humano. 
 
As cores e telas de Basquiat não lhe foram suficientes à manutenção de sua vida, que teve seu término brusco e precoce aos 27 anos, por overdose de droga.
 
Nossa sessão deste sábado, do Cinema e Psicanálise, nos falará sobre um desejo universal de reconhecimento e pertencimento; da elaboração dos aspectos psíquicos mais primitivos; da condição solitária, ao mesmo tempo em que criativa, da mente humana. Falará sobre a busca de formas de superação das dores mais profundas de nossa alma.
 
Penso que quando estamos acompanhados e em parceria, tudo se torna mais possível e fértil. Então, fica aqui meu convite ao mergulho no mundo da arte e da mente humana. Para pensarmos sobre o que oscila entre encontros e desencontros, sanidade e insanidade, vida e morte. Sobre o que surge do opaco, constituindo nuances que colorem, em tons tão variados, a nossa existência.
 
 
BASQUIAT, O FILME
 
O diretor. 
 
Julian Schnabel, artista plástico e contemporâneo de Jean-Michel Basquiat, fez com Basquiat sua primeira incursão ao cinema. Em algumas entrevistas, concedidas à imprensa por ocasião do lançamento, frisou que gostaria de mostrar com seu trabalho a herança cultural deixada por Jean-Michel, e não “falar de um artista negro usuário de heroína.” O elenco é composto por astros e estrelas renomados, como David Bowie, Courtney Love, Benicio del Toro, Gary Oldman, William Defoe, Dennis Hopper, Claire Forlani e Tatum O’Neal. Sobre a facilidade de ter podido contar com mais um nome famoso para viver o protagonista, Schnabel foi incisivo: “Preferi optar por ator desconhecido para interpretar Jean-Michel.” Jeffrey Wright parece ter conseguido o esperado pelo diretor. A semelhança entre ator e  protagonista é realmente impressionante, e a partir daí a cinebiografia consegue aproximar o espectador do artista. O laboratório do ator incluiu aulas de pintura — para que ele compreendesse o processo de criação —, estudo dos movimentos, dos gestos e do timbre de voz. O diretor, enquanto artista plástico,  seguiu de perto a carreira de Basquiat, e ambos tinham os mesmos amigos e agentes. Esse detalhe foi muito importante para se alcançar alto  nível de verossimilhança da obra. No filme, Schnabel cria o personagem Albert Milo, vivido por Gary Oldman, que o representou. 
 
O expediente de colocar o menino e sua mãe Matilde no início da história, enquanto desfilam os créditos, responde à  importância de mostrar quão cedo começou seu interesse por arte. Ele tem então aproximadamente seis anos e observa a obra prima de Pablo Picasso, Guernica, exposta no MoMA, o museu de arte moderna de Nova York. A coroa destacada em forma de animação que aparece sobre sua cabeça será um símbolo constante em toda a sua trajetória, enunciada primeiro em pichações, depois em descobertas de nova arte, pop art ou arte pós-moderna. Como diz Sílvio Lima, resumindo a biografia, “foram traços de uma vida em plenitude criativa e ao mesmo tempo um grito de pedido de socorro”. (SM)
 
Título: Basquiat: traços 
de uma vida
Diretor: Julian Schnabel
Onde: Centro Médico 
de Franca
Horário: 15 horas
 
 
Ana Regina Morandini Caldeira, Psicanalista pela SBPRP e Psicóloga

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