Nos últimos dias tornaram-se relativamente comuns notícias que dão conta de atitudes racistas contra jogadores de futebol. Nestes tempos de internet rápida, atos como os que atingiram o jogador Tinga, do Cruzeiro, durante partida pela Taça Libertadores no Peru, e contra o volante Arouca, do Santos, anteontem, em Mogi Mirim, pelo Campeonato Paulista, espalham-se como rastilhos de pólvora e causam espanto, nojo e revolta. Na história da humanidade, a diferenciação por causa da raça, da religião e de ideologias políticas foi o mote para verdadeiras carnificinas.
A raça foi a desculpa para que a Alemanha de Hitler promovesse uma matança sem precedentes, eliminando milhões de judeus e aqueles que não eram considerados pertencentes à ‘pura’ raça ariana. Ainda hoje, em alguns países, chacinas são perpetradas em nome da raça: na África e no Oriente Médio ainda se mata por isso. A religião também causou mortes ao longo da existência humana sobre a terra. Basta lembrar as cruzadas e os conflitos que ainda hoje opõem muçulmanos e judeus. Há países, como Iraque e Afeganistão, onde membros de uma mesma religião, mas de facção diferente matam-se uns aos outros. E, finalmente, as diferenças ideológicas deixaram milhões de mortos na União Soviética, depois da revolução comunista, e ainda causa mortes pelo mundo todo.
Estes são exemplos que deveriam envergonhar aqueles que ainda consideram a cor da pele diferencial. Para usar um termo politicamente correto, afrodescendentes ainda são vítimas de racismo. No mundo do futebol, não apenas por aqui, mas até na Europa, jogadores negros (alguns deles brasileiros) já foram alvo de manifestações de cunho racial. Chegou-se ao cúmulo de se atirar bananas dentro de campo, comparando-os a macacos. A longa luta de líderes do mundo todo para apagar a mancha da escravidão que atingiu negros africanos e desembocou em segregação racial em países como os Estados Unidos e África do Sul, não encontra eco junto a seres que não podem ser classificados como humanos.
Em uma antológica entrevista à TV, o ator norte-americano (e negro) Morgan Freeman, praticamente encerrou a questão. Questionado sobre o Mês da Consciência Negra, respondeu: ‘no dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência Negra, Amarela ou Branca e nos preocuparmos com Consciência Humana, o racismo desaparece’. É típico em nossa sociedade rotular não apenas pela raça, mas pelas deficiências. Uma luta de séculos cai por terra por causa de alguns elementos mal esclarecidos, em cuja imbecilidade acreditam que a ofensa racial será capaz de impedir que um jogador como Arouca apresente o bom futebol pelo qual tem sido elogiado nos últimos anos ao defender o Santos e a Seleção Brasileira. O que não se entende até agora, numa era em que a tecnologia é capaz de informar e ilustrar os menos esclarecidos com facilidade, alguém ainda consiga elevar a voz para ofender o semelhante. A cor da pele não determina o caráter. O que determina o caráter são as atitudes do ser humano. Tentar impingir defeitos por causa da raça torna o agressor integrante da mais baixa cadeia de indivíduos do planeta.
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