“Minha irmã entrou no hospital para ter nenê e saiu com a bexiga furada.” A afirmação é da promotora de vendas Ana Paula Pereira, cujo relato resume mais um caso em que uma família de paciente acusa a Santa Casa de Franca de negligência ou erro médico. Há mais de um mês, a mulher não controla sua urina.
A revisora Gislene Fernanda Pereira da Silva, de 23 anos, deu à luz a uma menina no dia 3 de fevereiro na Santa Casa. A paciente teve alta no dia 6, mas teve de voltar ao hospital no dia 10. “Fiquei todos esses dias com um líquido escorrendo da minha vagina. Primeiro achei que fosse normal, mas quatro dias depois resolvi voltar ao hospital”, disse Gislene. Ana Paula afirmou ter ficado surpresa com o diagnóstico ao acompanhar a irmã à unidade de saúde. “O médico de plantão que nos atendeu diagnosticou que minha irmã estava com a bexiga perfurada e que o problema havia ocorrido no parto.”
Gislene foi internada novamente. Mas, só recebeu a visita da médica que realizou seu parto no dia seguinte. Mesmo assim, segundo a família, após acionarem duas vezes a Ouvidoria da Santa Casa. “A médica disse que o que aconteceu com minha irmã era normal, que iria colocar uma sonda nela e que ela deveria voltar ao hospital 15 dias depois para se consultar com um urologista”, contou Ana Paula.
Mesmo com a sonda, Gislene teve de usar fraldas, pois a urina não parou de escorrer. Ela chegou a procurar a Santa Casa, no dia 15 do mês passado, para recolocar a sonda que havia saído do lugar.
Dez dias depois, a revisora foi novamente ao hospital para a consulta com o urologista, que constatou que o ferimento na bexiga ainda não havia cicatrizado e que a mulher deveria continuar usando o aparelho. “Ele não colocou a mão em mim. Só contei meu caso para ele, que disse para eu ficar com a sonda por mais 15 dias. Ele nem receitou nada para eu tomar e disse que eu não precisava continuar com a medicação”, disse Gislene.
Preocupada, a família procurou um médico urologista particular, no último dia 5. Ele constatou que a sonda colocada na paciente era pequena e, por isso, o líquido continuaria escorrendo da bexiga. O especialista teria constatado ainda que o caso de Gislene só seria solucionado com cirurgia. “Ele explicou que o corte na bexiga da minha irmã tinha sido feito em um lugar difícil de cicatrizar e que ela teria de operar. Ele receitou de novo o remédio que o urologista da Santa Casa tinha dito para ela não tomar mais”, disse Ana Paula, que procurou a Ouvidoria da Secretaria Municipal de Saúde - cogestora da Santa Casa -, no último dia 6, para registrar uma reclamação.
Após a queixa, a médica que realizou o parto entrou em contato com Ana Paula. “A doutora disse para voltarmos na Santa Casa hoje (ontem) para minha irmã ser internada novamente. E é o que vamos fazer”, disse a irmã à reportagem do Comércio antes de levar Gislene pela quinta vez à Santa Casa desde que deu à luz.
No final da tarde de ontem, a família da revisora informou que ela havia sido internada, passou por exames e aguardava a visita do urologista.
O Comércio entrou em contato com a Santa Casa, mas a assessoria do hospital não respondeu às questões até o fechamento desta edição. Já a Prefeitura disse que a Ouvidoria da Secretaria de Saúde fez “contatos com a médica que fez o parto, a qual atendeu e internou a paciente para uma avaliação urológica, permanecendo em observação”.
Cinco mortos
Ao menos cinco mortes com suspeita de falha no atendimento da Rede Pública de Saúde ocorreram nos últimos meses em Franca. João de Freitas Sobrinho, 81, morreu em maio do ano passado após ser derrubado de uma maca por funcionários da Prefeitura, quando era levado à Santa Casa para fazer hemodiálise. Kelly Cristina Souza, 27, morreu em novembro após passar diversas vezes pelo “Álvaro Azzuz” e ser internada para uma cirurgia de vesícula na Santa Casa. Luara Prieto, 25, passou oito vezes pelo PS e também morreu após procedimento cirúrgico no hospital.
Clésia de Araújo Novais, 31, morreu no CTI da Santa Casa após quatro dias internada. Antes, a dona de casa foi atendida no PS e liberada mesmo sem conseguir andar.
O caso mais recente aconteceu na última terça-feira. Francisca Firmina da Silva, de 47 anos, morreu 30 minutos após ter sido atendida no “Álvaro Azzuz”.
A secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, esteve na Câmara na última quinta-feira. Durante a sessão, ela pediu desculpas aos familiares das vítimas, chorou e reconheceu que há um problema “muito grave” na Saúde em Franca.
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