A secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, esteve na Câmara de Franca na manhã de ontem. Ela foi convidada para explicar aos vereadores as medidas adotadas pela Prefeitura diante das recentes denúncias de erro médico e descaso no atendimento prestado pelo Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” e pela Santa Casa. Rosane chorou e reconheceu que há um problema “muito grave”.
Passava pouco das 10 horas, quando a secretária subiu à tribuna. Para o plenário vazio, repetiu o discurso adotado durante a entrevista coletiva da semana passada. Apresentou diversos números da Saúde de Franca e repetiu que “a medicina é biológica”. “Uns vão entrar no Pronto-socorro e sair melhor, e outros vão agravar e piorar.” Evitou apenas usar a palavra “fatalidade”, que havia repetido diversas vezes na entrevista, causando a revolta de familiares de pessoas que morreram após ou durante atendimento na rede pública.
Dez minutos depois, três pessoas entraram no plenário: Silson Ribeiro, pai de Luara Prieto Ribeiro, jovem de 25 anos que morreu depois de passar oito vezes pelo PS; Maria Conceição Freitas, que perdeu o pai depois de ele ser derrubado de uma maca na Santa Casa; e Jerônimo Donizete de Oliveira, padrasto de Kelly Cristina de Souza, que morreu aos 27 anos depois de passar diversas vezes pelo PS e ser operada na Santa Casa. Eles se sentaram - calados - de frente à secretária.
Foi o que bastou para que Rosane abandonasse o discurso oficial e desabasse. Chorando, pediu desculpas aos familiares presentes. “Eu quero aqui pedir desculpas a todos os familiares das mulheres que morreram. Eu imagino a dor que estão sentindo, tem sido muito difícil para mim também. Eu estou muito fragilizada e não durmo pensando em vocês.” E diferente do que vinha afirmando, admitiu: “Eu quero dizer que eu sei que algo muito grave está acontecendo”.
Radicalmente oposto do que afirmou o diretor-técnico do PS, Renato Del Bianco, que defendeu a qualidade do atendimento prestado e disse ter 100% de certeza de que não houve erro médico no caso envolvendo Luara Ribeiro, a secretária ressaltou que as investigações ainda estão em andamento. “Não inocentamos ninguém. Estamos investigando com a ajuda da polícia e do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo). Assim que chegarmos a uma conclusão, as famílias serão avisadas.”
Ontem, mais uma família registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil depois da morte de uma diarista atendida no PS.
‘Catástrofe’
A secretária foi questionada por todos os vereadores. Pela dinâmica proposta pelo presidente Jépy Pereira (PSDB), primeiro todos faziam suas perguntas, em um bloco único, para depois Rosane responder de uma só vez. Um dos que se demonstraram mais preocupados foi Pastor Otávio (PTB). “Diante de tantas mortes e de tantas queixas, as pessoas estão com medo de ir ao Pronto-socorro. A senhora hoje diria que o atendimento prestado no PS é confiável?”, questionou. Em seguida, foi a vez de Márcio do Flórida (PT). “A senhora realmente acredita que a Saúde de Franca está tranquila diante desse quadro de catástrofe?”
A resposta foi genérica. A secretária repetiu que não faltam equipamentos nem remédio e que não há filas de espera nas unidades de saúde. Reafirmou que investimentos estão sendo feitos e que vem trabalhando “incansavelmente” pela melhora no atendimento.
Ao final, quando deixava o plenário, foi cercada pelos familiares. De novo, Rosane se emocionou. Chorando, pediu desculpas pelas palavras que usou na entrevista coletiva. “Eu posso ter usado as palavras erradas, mas nunca foi minha intenção magoar vocês. Me perdoem.” Ela se colocou à disposição para atendê-los. “Se quiserem acompanhar os andamentos, estou à disposição.”
Antes de sair, Rosane voltou a afirmar que existem muitos problemas na Saúde em Franca, mas foi evasiva ao tentar detalhá-los. “Esses problemas acontecem quando o médico não examina direito um paciente, quando a enfermeira não dá a atenção devida a um doente... Precisamos melhorar muita coisa. E estamos buscando soluções.”
Fiscalização
O delegado do Cremesp, Ulisses Minicucci, também esteve presente na sessão de ontem na Câmara. Ele tentou amenizar os problemas da Saúde em Franca. “Perto de outras cidades, Franca é uma ilha de excelência.” Ao ser questionado pelos vereadores, disse que o Conselho deve fazer uma nova fiscalização no Pronto-socorro, mas não citou data.
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