‘Quis só ajudar uma mulher que havia sido roubada’, diz jovem de 16 anos


| Tempo de leitura: 3 min
Jovem, ao centro, ao lado dos pais. Ele disse que fez a primeira massagem cardíaca no ladrão
Jovem, ao centro, ao lado dos pais. Ele disse que fez a primeira massagem cardíaca no ladrão
Ele tem 16 anos. Quando tinha 13 anos, começou a aprender funilaria em uma oficina perto de casa. Queria começar a trabalhar cedo para ajudar a família. O primeiro emprego foi em um varejão. Hoje trabalha no almoxarife em uma fábrica de calçados. Formou-se mecânico de usinagem no Senai em 2013 e está cursando o 3º ano do ensino médio em uma escola pública. Ele tem sonhos. Quer fazer faculdade de educação física ou nutrição. Mora com os pais e a irmã de 22 anos, na zona oeste de Franca. A família é simples. O pai trabalha há 14 anos em uma fábrica de sapatos. Cabeleireira, a mãe complementa a renda fazendo faxina para fora. A família frequenta as Paróquias Santa Luzia e São Sebastião e se orgulha de ajudar a promover o Encontro de Casais com Cristo. Ele é um rapaz caseiro, não tem vícios, é um jovem educado, admirado pelos amigos e pela namorada. No intervalo entre os compromissos, gosta de se exercitar em uma academia. Sua rotina sofreu uma guinada de 180 graus há uma semana.
 
Na tarde de segunda-feira, 24, ele retornava para casa do trabalho, quando viu uma mulher sendo assaltada. “A moça estava com um neném no colo. O homem passou, trombou nela, pegou o celular dela e saiu correndo. A mulher começou a gritar e pediu socorro”, disse. Um vizinho pegou o carro o chamou para seguirem o criminoso. Após dois quarteirões, o avistaram. “Ele tinha tirado a camiseta e estava com o celular da moça na mão. Paramos o carro e pedimos para ele devolver. Ele saiu correndo e entrou no mato.”
 
O rapaz contou que o sujeito pulou um barranco e entrou em um campo de futebol. Enquanto corria, xingava os dois que o perseguiam. O autor do furto, que segundo o próprio pai era usuário de drogas, se desequilibrou e caiu de bruços. “Foi quando consegui alcançá-lo e o imobilizei com as mãos e pernas. Pedimos o celular e ele continuou xingando. Não dei nenhum golpe. Só o mantive imobilizado até a polícia chegar.”
 
Lucas César de Oliveira, 22, o ladrão, passava mal e ficou com a boca roxa. O garoto que o imobilizou aprendeu noções de primeiros socorros quando estudou no Senai e fez massagens no peito de Lucas na tentativa de reanimá-lo. “Entrei em desespero e nem sei se fiz direito. A polícia chegou e continuou fazendo a massagem cardíaca. Os policiais anotaram meus dados e me deixaram ir embora.” O ladrão foi autuado em flagrante por tentativa de roubo e levado ao hospital. Ele havia sofrido um enfarte e morreu na noite seguinte. Lucas tinha sete passagens anteriores pela polícia. Foi preso por tentativa de roubo em 2010. Em 2011 e 2012, Lucas, que era de São José da Bela Vista, foi indiciado por furto seis vezes.
 
O garoto que agiu para defender a mulher e seu filho, passou a receber ameaças de conhecidos do morto. Terá a conduta averiguada pela polícia. O delegado João Wálter Tostes Garcia apura se o enfarte foi provocado pela imobilização. O jovem poderá responder por lesão corporal seguida de morte. Assustado com a repercussão do caso e com as ameaças, está com medo e não foi mais à escola. Foi orientado a deixar a cidade. 
 
Entrevistado com exclusividade pelo Comércio, chorou, rebateu acusações de que teria aplicado golpes de artes marciais no criminoso e afirmou ser inocente. “Nunca pratiquei luta, só faço musculação. Quis apenas ajudar uma mulher que havia sido roubada.”
 
Apesar do medo e da preocupação com a segurança da família, o garoto disse não ter se arrependido da atitude. “Temos que fazer as coisas para ajudar o próximo. Não só eu, mas todo mundo tinha que ter esta consciência e não ficar julgando.Temos que ajudar, independente do que vá acontecer.”

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários