A servente de merendeira Márcia Prieto Ribeiro acompanhou todo o calvário enfrentado por sua filha Luara Prieto Ribeiro em busca de cura na rede pública de Saúde de Franca. Foram mais de 20 dias entre idas e vindas ao Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, internações, exames e consultas. A batalha terminou no dia 8 de janeiro. Luara morreu às 23h30. Estava sozinha, amarrada a um leito do CTI (Centro de Tratamento Intensivo da Santa Casa). Márcia nunca comentou o assunto. Durante os 50 dias que se seguiram, preferiu o silêncio. Foi na noite da última quarta-feira, depois de ler atônita a entrevista coletiva concedida pela secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, e pelo diretor-técnico do Pronto-socorro Municipal, o médico Renato Del Bianco, que, pela primeira vez, Márcia decidiu falar.
Márcia recebeu a reportagem do Comércio no sobrado que dividia com a filha. Na garagem, ainda mantém a moto que Luara havia comprado recentemente. Na sala, porta-retratos com o rosto de filha sorrindo ao longo dos anos se espalham por todo canto. A fiel amiga Lila, uma vira-lata gordinha, é hoje a única companhia de Márcia. “É assim agora. A casa sempre vazia. Ainda me pego esperando a Luara chegar.” Os olhos cansados e a voz embargada denunciam o sofrimento.
Calvário
Sentada no sofá, Márcia narrou como foi viver o calvário ao lado de Luara. “Eles nunca me deixavam entrar. Ela sempre voltava para casa com dores e chorando. Entrava e saía do Pronto-socorro chorando. Da última vez, nem queria voltar mais.”
Chorando, a mãe contou por que decidiu só se pronunciar 50 dias depois da morte da jovem. “Porque estou indignada, estou com raiva, com ódio. Como uma secretária de saúde pode dizer que a morte da minha filha foi uma fatalidade? Minha filha passou sete vezes pelo pronto-socorro, foi internada na Santa Casa duas vezes. Isso, por um acaso, é fatalidade? Não foi fatalidade. Eles erraram desde o dia 16 de dezembro quando ela foi atendida no PS pela primeira vez até o dia que saiu morta.”
Márcia disse que, ao contrário do que afirmou a secretária na entrevista que concedeu na última terça-feira, faltam, sim, equipamentos no PS. “A Luara tinha um pedido urgente para fazer ultrassom. Mas, quando fui à Secretaria de Saúde, disseram que teria de esperar sete dias.”
Ela também negou que os atendimentos no PS sejam humanizados. “Eles me colocaram para fora de lá. Eu estava na enfermaria acompanhando a Luara tomar soro. Veio o Dr. Renato e praticamente me expulsou de lá. Isso não é jeito de tratar uma mãe.”
Revolta
Revoltada com a falta de explicação para a morte da filha, a servente de merendeira criticou a postura adotada pela Secretaria de Saúde de não afastar os médicos envolvidos. “Até quando que eles vão deixar que aconteçam ‘fatalidades’? Eles destruíram minha família. Eu agora sou sozinha. É uma família que ela destruiu. É muito simples dizer que foi uma fatalidade.”
Para Márcia, o erro médico não pode ser aceito por quem gerencia o sistema público de saúde. “Eu sou servente de merendeira. Eu posso errar uma panela de arroz porque eu jogo fora e faço outra. Mas um médico não tem esse mesmo direito. Ele não pode errar, porque ele lida com vidas e vidas não tem como substituir. Quem vai me devolver minha filha?”
Márcia ainda mantém o quarto de Luara intacto. Nada foi doado ou mudado de lugar. “Não quero que a morte da minha filha seja em vão. Nada a trará de volta. Mas resolvi falar porque não consigo dormir imaginando que o que aconteceu comigo vai continuar acontecendo, como disse a secretária. Isso é um absurdo.”
Na Justiça
O pai de Luara, Silson Ribeiro, que é separado de Márcia, está cuidando de toda a documentação para que a Prefeitura e os médicos envolvidos sejam processados judicialmente. “Não quero dinheiro. Só quero que eles pensem duas vezes antes de fazer com outra pessoa o que fizeram com a minha filha.”
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