O governo federal ontem deu uma mostra de que as coisas não seguem às mil maravilhas no programa Mais Médicos e o acordo com os profissionais cubanos, que já vem sendo contestado por partidos de oposição e entrou na mira do Ministério Público do Trabalho, contém irregularidades. É melhor explicar: o governo federal elevou de US$ 400 para US$ 1.245 o salário pago diretamente aos cubanos que participam do programa. O anúncio foi feito ontem pelo ministro da Saúde, Arthur Chioro. O novo salário equivale a cerca de R$ 3 mil contra os R$ 960 pagos anteriormente - ainda muito longe dos R$ 10 mil pagos a médicos brasileiros e de outras nacionalidades que integram o programa. A ditadura cubana seguirá com a maior parte do dinheiro pago pelo Brasil por médico. O aumento anunciado é, portanto, insuficiente para solucionar a disparidade injustificável entre os cubanos e os demais profissionais do Mais Médicos.
Pelo sistema antigo, os cubanos também tinham direito a outros U$ 600 mensais que ficavam, entretanto, retidos em Cuba -- e só poderiam ser sacados ao fim do programa. Agora, o dinheiro poderá ser retirado mensalmente no Brasil, junto com outros US$ 250 concedidos de aumento. O reajuste resulta de uma tentativa de amenizar as críticas a uma das vitrines eleitorais da presidente Dilma Rousseff. Na avaliação do Planalto, um salário maior para os profissionais poderia ajudar, também, a amenizar o descontentamento do Ministério Público do Trabalho. Já está sendo realizada uma investigação sobre as condições dos médicos recrutados em Cuba. Os detalhes sobre o pagamento dos cubanos vieram à tona depois que a médica cubana Ramona Rodrigues desertou do programa e revelou que o governo de Cuba ficava com a maior parte do dinheiro pago aos profissionais. Os cubanos são a maioria dos 6.650 médicos contratados por meio do programa.
A ação do governo mostra que há alguma coisa errada com esse programa. Afinal, se o acordo tivesse sido fechado com a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), a decisão de reajustar o repasse aos cubanos deveria partir da entidade. A decisão do governo em anunciar o reajuste para os cubanos também é indício de que algo mais pode ser contestado. A investigação do Ministério Público do Trabalho, que considera o trabalho dos médicos cubanos análogo à escravatura, com certeza não será freada com o aumento anunciado ontem.
O Mais Médicos pode deixar de ser a vitrine do ex-ministro Alexandre Padilha na disputa pelo governo paulista, em outubro próximo, e se tornar a vidraça do Partido dos Trabalhadores em todo o País. Afinal, embora rincões brasileiros contem agora com atendimento médico, a saúde pública brasileira não será consertada com o aumento dos profissionais. A falta de estrutura na maioria dos hospitais, ambulatórios e unidades assistenciais na maioria das cidades brasileiras ainda mantém o setor como um dos mais criticados pelos brasileiros, necessitando de investimentos em espaços físicos e equipamentos. Do contrário, ainda continuaremos recebendo atendimento médico de qualidade duvidosa que apenas este programa não será capaz de corrigir.
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