Interceptações telefônicas dão conta de plano para resgatar Marcola, Marcos Willians Herbas Camacho, líder de facção criminosa detido em Presidente Venceslau (SP). Seriam utilizados helicópteros blindados. A data? Hoje, primeiro de março. O governador Geraldo Alckmin, disse que a segurança pública está atenta e pronta, se for o caso. Há também uma entrevista com Marcola. Leia um resumo:
Você é do PCC?: Sou o sinal dos novos tempos. Era mole resolver a miséria. O que fizeram? Nada! Só aparecíamos nos desabamentos de morros... Agora, estamos ricos e vocês morrem de medo da multinacional do pó.
Há solução?: Solução? Não há mais solução, cara... Só com bilhões de dólares gastos com imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, e teria que ser sob batuta de tirania esclarecida, que pulasse a burocracia, passasse por cima do Legislativo cúmplice e do Judiciário que impede punições. Implicaria em mudança na estrutura política do país. Não há solução!
Você tem medo de morrer?: São vocês que têm. Eu não! Na cadeia vocês podem me matar, mas, lá fora, posso mandar matar vocês. Nas favelas temos cem mil homens-bombas. Somos diferentes de vocês. Morte é drama cristão na cama. Para nós, é presunto diário desovado em vala... Os intelectuais não falavam em ser marginal? Pois é. Somos nós! (risos). Eu leio Dante, mas meus soldados são anomalias do desenvolvimento torto deste país. Não há mais infelizes ou explorados. Há uma coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando em analfabetismo, diplomando nas cadeias. Estamos diante de uma pós-miséria que gera cultura assassina ajudada por satélites, celulares, internet. armas modernas. É a merda com chip. E nós temos grana! Você acha que quem tem milhões de dólares não manda? Prisão vira hotel, escritório. Quem vai querer queimar essa mina de ouro, tá ligado? Somos empresa moderna. Se funcionário vacila vai para o microondas. Vocês são Estado quebrado, dominado por incompetentes.
O que mudou nas periferias?: Nós lutamos em terreno próprio, vocês, em terra estranha. Não tememos a morte, vocês morrem de medo. Estamos sempre no ataque, vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo, nós somos cruéis. Vocês nos transformaram em superstars, nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pelas favelas por medo ou amor, vocês são odiados.
O que a sociedade deveria fazer?: Mesmo contra nós, peguem os barões do pó. Tem deputado, senador, generais, ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer? O exército? Com que grana? O país está quebrado. Alguém acha que o exército vai lutar contra o PCC e o CV? Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas. Para acabar com a gente só bomba atômica nas favelas. Aliás, a gente acaba arranjando umazinha, das sujas mesmo. Já pensou? Ipanema radioativa? Não tem saída. Só a merda, e nós já trabalhamos nela. Vocês não entendem. Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.’
Hoax: Essa entrevista é um hoax, vírus compartilhado pela internet. Não aconteceu! É literatura, crônica do jornalista Arnaldo Jabor apresentada na CBN em 25 de junho de 2006! Foi tranformada em ‘entrevista de Marcola a repórter, de dentro do presídio’. Deputados se manifestaram, escandalizados. Gente assustada e nervosa copiou e replicou, ad infinitum, empenhando sua credibilidade pessoal. Meios de comunicação publicaram sem checar. Incontáveis suspiraram de terror: ‘então, é verdade! O que será de nós!’ Devia ser só literatura, mas tornou-se soco no estômago. Nas estrelinhas há verdades que temos que comprender e enfrentar para poder contraditar o ‘Marcola de Jabor’, provar-lhe que há, sim, caminhos...
Luiz Neto, jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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