‘A dinâmica de apanhar e voltar para casa dá força para o agressor’


| Tempo de leitura: 7 min
Após precisar do atendimento da DDM por sofrer ameaças do ex-companheiro, a psicóloga Ellen White se tornou voluntária na delegacia. Há sete meses atende vítimas de abuso sexual e agressão
Após precisar do atendimento da DDM por sofrer ameaças do ex-companheiro, a psicóloga Ellen White se tornou voluntária na delegacia. Há sete meses atende vítimas de abuso sexual e agressão
A psicóloga Ellen White, 41, que recebeu esse nome em homenagem a uma escritora americana, desenvolve um trabalho voluntário na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Franca. Há sete meses, participa como coadjuvante nas páginas da vida de dezenas de mulheres vítimas de agressão, ameaças e estupro, que buscam ajuda na delegacia todos os meses. 
 
Conhecedora da psicologia e da sensação de ser ameaçada pelo companheiro, Ellen White dedica os dias da semana ao voluntariado, reservando apenas duas tardes para o trabalho remunerado em seu consultório, localizado no Centro da cidade. 
 
Na delegacia, Ellen atua ao lado de Fabiana Zagolin, psicóloga titular da DDM há 16 anos. Ellen recebeu o Comércio para falar de sua “missão” de prestar auxílio psicológico às mulheres e crianças vítimas de violência.
 
Por que você resolveu desenvolver esse trabalho voluntário na DDM de Franca?
Vim até a delegacia por uma história da minha vida pessoal. Tive um relacionamento com a não aceitação da separação por parte do meu ex-marido. Então vim procurar a delegada (Graciela Ambrósio). Sabia de seu olhar diferenciado. As pessoas não vêm aqui só para fazer um boletim de ocorrência, elas vêm buscar socorro. E a delegada me socorreu. Fiquei um tempo esperando pelo atendimento, olhei e pensei: ‘Aqui precisa de mais um psicólogo, porque há um rodízio de pessoas o tempo inteiro’. Assim que fui acolhida, conclui: ‘É a minha cara. É isso que eu quero’. Então, antes de falar do meu problema já que havia vindo falar da minha vida pessoal, disse para a delegada: ‘Doutora, preciso de uma oportunidade. Gostaria de trabalhar aqui. Quero acolher, fazer triagem, conversar com as vítimas, mostrar essa psicologia que podemos usar para ajudar as pessoas’. Foi então que me encontrei, me apaixonei e tenho a maior dificuldade em sair daqui.
 
Seu trabalho acontece em conjunto com as equipes policiais. Em que consiste, exatamente, a atividade da psicóloga voluntária na DDM?
A pessoa chega aqui com uma história que vai ser investigada. A delegada olha tanto a vítima como o averiguado. E eu ouço as pessoas que vieram registrar boletim de ocorrência por ameaça, estupro, abandono e maus tratos. Enxergo diferente porque não tenho um olhar policial. Juntos, verificamos se há necessidade de registrar o boletim de ocorrência ou apenas auxiliar na conciliação.
 
Isso significa que seu trabalho minimiza o volume de casos que chegariam à mesa da delegada?
O que posso, tento barrar na triagem. A polícia tem que investigar crimes. Há casos em que orientações e informações bastam. Há pessoas que vêm procurar a delegacia porque querem se separar. Elas acham que vão fazer um BO para proteger seus bens. Isso não existe. Mas a DDM dá esse amparo para a comunidade. As pessoas chegam aqui muito sofridas e saem muito acalentadas.
 
Em que tipo de casos atuou com maior frequência nesses sete meses como voluntária?
Comecei atendendo vítimas de ameaça. São os casos mais comuns: homens que não aceitam o fim do relacionamento e as mulheres recorrem à delegacia. Também atendo casos de maus tratos e estupro de vulnerável, normalmente atendidos pela psicóloga Fabiana Zagolin, que trabalha aqui há mais tempo e é mais experiente. Mas como estou adquirindo mais experiência, já estou recebendo esses casos também.
 
Segundo dados da DDM divulgados pelo Comércio no fim de 2013, uma mulher é vítima de violência a cada seis horas em Franca. Como elas chegam à delegacia?
Primeiramente elas chegam muito sofridas porque foram agredidas. Às vezes, machucadas e assustadas com as ameaças. Aqui é como se fosse um hospital. Elas vêm buscar socorro e encontram. Elas vêm atrás da gente porque sabem que nosso trabalho tem dado resultado. Mas existem aquelas que são reincidentes, que se tornaram nossas ‘clientes fiéis’.
 
O que prende essas mulheres agredidas a seus agressores?
Aqui na delegacia, como psicóloga, percebi que as mulheres não se afastam desses homens por medo, amor ou dependência financeira. Quando elas são muito dependentes, têm maior dificuldade de se desvincularem desse agressor. Isso é fato. Há mulheres que vivem nessa dinâmica de apanhar e voltar para casa. Isso dá força para o agressor. Como profissional, acredito que as mulheres acabam sendo coniventes algumas vezes porque se tomassem uma posição não teriam para onde ir, falta um local para atendê-las. 
 
A instalação de uma Casa da Mulher Vitimizada seria a solução?
Esse é o sonho da delegada. Proteger essas mulheres para elas não precisarem voltar para casa quando estão realmente decididas a dissolver o relacionamento. Às vezes, elas têm muitos filhos. Se tivéssemos uma casa para acolher essas mulheres seria o ideal, mas a realidade é que faltam políticas públicas para atender essas pessoas.
 
É possível afirmar que a Lei Maria da Penha trouxe mais credibilidade ao trabalho da polícia?
Na DDM sim. O trabalho que fazemos é de muito amor. Muito cuidado. A equipe criada pela delegada tem um olhar muito humano para essas pessoas. A delegacia está aqui para defender a mulher, mas estudamos o contexto. Às vezes, ela levou um tapa porque também deu um tapa. Por isso, temos que tomar muito cuidado com a Lei Maria da Penha para não prender um inocente.
 
Entre os casos atendidos pela DDM estão os de menores abusados sexualmente. Você acredita que uma criança vítima desse tipo de crime pode superar o trauma?
É uma marca que vai ficar para o resto da vida. Tanto em criança quanto em mulheres abusadas. Mas depende também do cuidado que a família tem e do trabalho que é feito pós-violência. O que percebemos é que quando tem uma estrutura familiar que acompanha essa criança, ela pode até ficar marcada sim, mas conseguirá superar. Isso acreditando na capacidade de superação do ser humano.
 
Quando uma criança é vítima de abuso sexual é possível identificar mudanças em seu comportamento?
A mudança é visível. As crianças falam exatamente como aconteceu. Não existe mais essa dificuldade de ter que usar só o lúdico: desenhar e usar brinquedos. A criança fala. Não existe regra na mudança de comportamento. Algumas crianças perdem o sono, param de comer, começam a chorar e voltam a fazer xixi na cama, outras demonstram uma agressividade muito grande ou ficam muito retraídas.
 
Como os pais podem proteger os filhos e de que maneira identificar se foram abusados?
A primeira dica é ficar atento. Vemos um rosto bonito, mas não conhecemos o que vai dentro do coração. Não sabemos de onde vêm as anormalidades do ser humano. Hoje a gente não sabe quem é bom ou ruim. As crianças abusadas são aquelas que, geralmente, a mãe não está perto, crianças que estão ‘meio que soltas’. Então um vizinho, tio, irmão do padrasto podem cometer esse tipo de crime...
 
Mas há casos em que o próprio pai é o abusador.
É com menor frequência. O maior índice é com terceiros. Mas a dica é ficar atento, saber onde o seu filho está e com quem. A mudança de comportamento é o sinal. Se seu filho é tranquilo, vai bem na escola, come e dorme bem é o comportamento esperado.
 
Pessoas que abusam de crianças, necessariamente, têm algum distúrbio psicológico?
Sim. Com certeza sofrem um transtorno sexual. E por ser uma doença, nem sempre tem uma causa definida. O abusador, geralmente, foi privado de algo: amor, carinho. Existe um histórico comprometido na vida dele. Uma pessoa equilibrada, que tem um lar estável, que tem religião e amparo da família, geralmente não será um abusador.
 
Acompanhamos casos de crianças e adolescentes que são abusados por padres ou pastores. Para proteger os filhos, a confiança que os pais depositam nesses líderes religiosos deveria ser revista?
Agora vou falar como mãe. O ser humano não é passivo de confiança por ser autoridade, padre ou pastor. Somos todos humanos, passivos de distúrbios que não vêm escritos, explícitos. Então fique atento com o líder da sua igreja, vizinho, amigo, companheiro. Hoje não custa nada ficar atento a tudo que está a sua volta. Infelizmente, o ser humano está perdendo um pouco de seus valores.
 
Somente mulheres e crianças recebem atendimento psicológico na DDM, ou seus agressores também são acolhidos?
Aqui há o acolhimento das duas partes. Como ser humano e pessoalmente preferiria não atender estupradores de crianças, como psicóloga, atendo qualquer caso. A gente acolhe qualquer pessoa aqui. Ninguém sai sem uma palavra da Polícia Civil quando passa aqui pela DDM.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários