Anos atrás, a TV Globo tinha um programa de humor de bastante sucesso, a Escolinha do Professor Raimundo, uma criação do genial Chico Anysio, já falecido. Um dos personagens era um aluno enrolado, o Rolando Lero, que criava respostas hilárias a qualquer pergunta do professor. Inventava e criava histórias sem pudores, desviando sempre o foco do assunto, na tentativa de engabelar o professor para conseguir uma boa nota. Interpretado pelo também genial (e saudoso) Rogério Cardoso, Rolando Lero foi um dos grandes destaques do programa por décadas a fio. Atravessou os anos e nunca conseguiu seu intento.
A secretária Municipal de Saúde, Rosane Moscardini, resolveu falar, depois de algum tempo de silêncio, a respeito das três mortes registradas em menos de três meses depois de atendimentos médicos prestados pelo sistema de saúde pública de Franca. E agiu tal como Rolando Lero.
Em entrevista coletiva na terça-feira, Rosane Moscardini rebateu as afirmações do delegado regional do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), Lavínio Camarim, e negou que o Pronto-Socorro ‘Álvaro Azzuz’ tenha problemas. Para ela, as três mortes dos últimos três meses são ‘fatalidades’. Na maior parte da entrevista, a secretária preferiu exaltar os números do setor no município. Segundo ela, mais de ‘70% da população da cidade depende da rede SUS’, acrescentando que no ano passado foram feitas mais de 1,5 milhão de consultas. Ela questionou ainda o delegado regional do Cremesp, que havia apontado diversos problemas no atendimento prestado pelo PS: ‘a realidade que o Cremesp apresenta não é a nossa’, garantiu.
Porém, as diversas críticas -- que partem da população atendida pelas unidades de Saúde Pública na cidade -- mostram uma realidade que a secretária prefere não encarar. Além disso, Rosane Moscardini disse que as críticas feitas à rede pública de Saúde são ‘injustas’. ‘Estamos sendo massacrados pela imprensa. Não somos bandidos. Não é honesto conosco o que tem sido veiculado a respeito do Pronto-Socorro. Não estamos brincando.’ Mas ela acaba caindo na enrolação ao atribuir as três mortes registradas em menos de três meses a ‘fatalidades’ devido ao volume de atendimentos prestados. E acrescenta que ‘a medicina não é exata. É biológica’. ‘Tem paciente que vai entrar no Pronto-Socorro e sair superbem. Da mesma forma, vai ter paciente que vai agravar ou piorar. Faz parte da saúde pública, faz parte da vida. Não somos nós que inventamos isso’, disse.
Ou seja: para ela, a agonia de Luara Prieto, 25, e de Clésia Novais, 31, foram ‘fatalidades’ que podem ocorrer com qualquer um. Porém, não fosse a repetição, esta tese até que poderia ser admissível. Sobre Kelly Souza, 27, que morreu depois de ser operada na Santa Casa - a Prefeitura é cogestora do hospital -, não houve explicações. E tristememente a secretária incorre em erro tão comum a agentes públicos sem argumentos. Ela culpa o mensageiro pela mensagem. Ou seja, a secretária parece esquecer que o que a imprensa noticiou é fato. As pessoas realmente morreram e as críticas de usuários são reais. É a isso que a secretária deveria atentar. Seria mais produtivo que tentativas banais de enrolar sem nada dizer, ficassem restritas a personagens como Rolando Lero.
e-mail opiniao@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.