Elas eram jovens. Bonitas. Com saúde e muitos sonhos. Kelly Cristina Souza, de 27 anos; Luara Prieto Ribeiro, 25, e Clésia de Araújo Novais, 31, queriam viver. Faziam planos para o futuro. Mas tiveram suas vidas interrompidas. As três estão mortas. Perderam suas vidas depois de serem atendidas no Pronto-Socorro “Álvaro Azzuz” e na Santa Casa de Franca. Suas famílias acusam a rede pública de saúde de negligência, descaso e erro médico. Como resposta, até agora, apenas a abertura de sindicância administrativa por parte da Prefeitura. Todos os médicos envolvidos nos três casos continuam trabalhando e atendendo pacientes normalmente.
A morte mais recente aconteceu na semana passada. A dona de casa Clésia de Araújo Novais faleceu no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) da Santa Casa na quinta-feira depois de passar quatro dias internada. A causa da morte ainda não foi esclarecida. Segundo o marido de Clésia, William Cabral Pinto, os problemas de saúde da dona de casa começaram no dia 13. “Ela disse que estava com muita dor de cabeça e no corpo. Mas só pediu para ir ao médico sábado”, disse.
Levada ao Pronto-Socorro, sem passar por nenhum exame, Clésia teria recebido glicose e soro e, então, sido liberada. No mesmo dia, já à noite, a dona de casa teria desmaiado e foi levada novamente ao PS. Clésia ficou em observação até a manhã seguinte. Quando sem realizar qualquer exame e mesmo não conseguindo ficar de pé sozinha, a dona de casa recebeu alta. “Ainda questionei o médico e ele disse que a minha mulher não tinha nada, que era tudo psicológico.”
William levou Clésia para casa. Ela não melhorou e ele acionou o Samu, que pediu a ela que esperasse. Sem outra alternativa, William decidiu buscar atendimento particular. “Foi lá na Unimed que eles disseram que minha mulher estava em choque. Ela tinha diabetes. A gente não sabia. Deram para ela glicose o que agravou o quadro”. Clésia entrou em coma. Foi encaminhada para Santa Casa e, aos 31 anos, morreu deixando uma filha de 10 anos. William ainda não consegue falar sobre o assunto. Mas não se conforma. “Era só eles terem dado uma picada no dedo dela. Não fizeram nenhum exame e ainda disseram que era psicológico. Um absurdo.”
A morte de Clésia aconteceu pouco mais de um mês depois de Luara Prieto falecer também no CTI da Santa Casa. Aos 25 anos, a jovem morreu no dia 8 de janeiro, depois de ser atendida oito vezes no pronto-socorro e passar por duas operações no hospital.
Os médicos disseram à família que Luara sofria de uma infecção urinária, mas em uma de suas idas ao PS o médico determinou a suspensão do uso de antibióticos, o que piorou seu estado de saúde e a levou a ser internada na Santa Casa. Debilitada, Luara foi submetida a duas cirurgias, segundo os médicos, para curar a infecção espalhada pelo organismo. Morreu um dia depois.
Seu pai, o empresário Silson Ribeiro está indignado com a perda da filha, tão jovem. “Foi muita negligência. Minha filha tinha uma infecção que é facilmente curável e saiu morta de lá.” Ele prestou queixa à polícia. No final de janeiro, um laudo do IML (Instituto Médico Legal) apontou como causa da morte da jovem hemorragia interna e afirmou não ter encontrado sinais de infecção no organismo dela.
A morte de Kelly aconteceu em novembro de 2013. Ela deixou a filha Júlia, de apenas 9 anos, órfã. Ela havia sido internada na Santa Casa de Franca para a retirada da vesícula. “No ano passado, ela começou a ter dores no estômago. Foi váriasvezes ao PS e sempre a mandavam pra casa”, conta Keylla Souza, irmã de Kelly.
Foi numa dessas idas ao pronto-socorro que um médico pediu um exame mais detalhado e descobriu que Kelly tinha úlcera. “Ela foi internada e operada, mas nunca ficou boa. Sempre sentia muita dor”, disse a irmã.
Em novembro, um novo exame apontou que a jovem estava com pedras na vesícula e precisava ser operada. “Nos exames para a cirurgia, os médicos viram que ela tinha também uma hérnia. Mas no dia da operação, esqueceram de retirá-la. Então, a Kelly permaneceu internada.”
No dia 13 de novembro, Kelly foi encontrada por enfermeiros inconsciente no chão do banheiro do quarto onde estava internada. “Eles disseram que ela tinha tentado se suicidar tomando um medicamento antidepressivo. Mas minha irmã não faria isso. Ela queria viver, estava animada porque ia alugar uma casa para morar com a filha. Estava feliz.”
Segundo a família, em vez de levarem Kelly para fazer lavagem estomacal, os médicos da Santa Casa preferiram esperar. “Quando resolveram fazer algo, já era tarde. Ela já tinha morrido. A gente acha que não teve nada de medicamento. Que ela morreu por causa da hérnia que eles não operaram.”
Resultados
Nos três casos, as famílias denunciaram as ocorrências à polícia. “Não podia ficar calado”, disse Silson. Os casos continuam sendo investigados, mas ainda não há nenhuma conclusão.
Na Prefeitura, responsável pelo atendimento do pronto-socorro e cogestora da Santa Casa, a resposta padrão para as famílias foi a abertura de procedimentos administrativos. A secretária de Saúde, Rosane Moscardini, optou por não afastar os médicos e profissionais envolvidos nos casos. “É preciso primeiro concluir as sindicâncias. Temos que apurar antes de afastar”, disse. Todos os acusados continuam trabalhando e atendendo à população nos dois principais locais de atendimento de urgência e emergência da cidade.
No Cremesp (Conselho Regional de Medicina), os casos também são investigados, mas, estão ainda sem conclusão. O delegado regional do órgão em Franca, Lavínio Camarim, disse estar preocupado com a situação da saúde pública na cidade.
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