Formiga lava-pé?


| Tempo de leitura: 2 min
A história me foi contada faz muito tempo pelo Hermógenes, mineiro de Cássia e de cabeça mais branca que a minha. E, garante ele, não é inventada.
 
Disse-me ele ter sido convidado para padrinho de casamento de um primo, residente na cidade de Formiga, cidade localizada a meio caminho entre Cássia e Belo Horizonte. Por ser o parente de origem humílima, resolveu ser magnânimo.
 
- Não vou dar fogão, não vou dar faqueiro de presente, não. O meu presente vai ser diferente. Vou mandar esses meninos conhecerem o mar.
 
Dito e feito. Pegou o telefone, pediu à telefonista que lhe fizesse um interurbano para o Rio de Janeiro, esperou, foi atendido por uma voz cheia de erres, apressadinha. Explicou calma e mineiramente:
 
- Alô, quero fazer uma reserva pra dois dias.
 
- O nome completo do senhor, por favor.
 
- Não, não é pra mim não. É prum casal de Formiga.
 
Do outro lado da linha chegou uma avalanche de pedras, em forma de palavrões que machucaram sua avó, sua mãe e outros parentes. A peroração foi mais ou menos assim:
 
- Se ligar outra vez, vou denunciá-lo à polícia, seu comunista dos diabos.
 
Era época da Ditadura Militar, por isso o adjetivo comunista fez o Hermógenes silenciar-se, encolher-se. Mas o mineiro não era homem de intimidar-se, de mudar seus planos por causa de ameaças. Reiterou sua famosa tenacidade (teimosia, em verdade), quando tomou a seguinte atitude: no dia do casamento, meteu envelope com dinheiro, no bolso do afilhado, recomendou:
 
- Vai conhecer Belrizonte, vai.
 
O tempo passou, e a ocorrência permanece útil. Recorro a ela quando ensino a diferença entre substantivo concreto e abstrato. Relato a história, mostro que o recepcionista carioca entendeu que o meu amigo desejava hospedar no seu hotel um casal de saúva, de tanajura, de quem-quem, de cabeçuda, ou de lava-pé.
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários