Basta um breve passeio pelas academias de jiu-jitsu de Franca para perceber que a cidade é uma fonte de novos talentos para a luta. São jovens apaixonados pela arte marcial que chegam a mudar o estilo de vida por conta do jiu-jitsu. Muitos deles já conquistaram títulos nacionais em suas categorias e até classificação para campeonatos no exterior. Porém, os lutadores francanos encontram dificuldades para deslanchar na carreira por falta de patrocínio. Alguns deles têm a chance de representar Franca em Dubai e Estados Unidos, mas correm o risco de perder a oportunidade por falta de recursos para atravessarem continentes até chegarem aos tatames estrangeiros.
Quem olha para o número de medalhas e troféus do faixa laranja de jiu-jitsu Geraldo Magela Toledo Júnior não acredita que o garoto tem apenas 13 anos e que treina há somente dois. “O Juninho começou com uma idade legal e está despontando além de rapazes da idade dele”, disse o professor de jiu-jitsu do garoto, Iaroslav Neoral.
A última importante conquista de Geraldo Júnior foi a classificação para um torneio mundial na cidade de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, que acontecerá daqui a pouco mais de dois meses, em abril. O garoto conquistou a vaga depois de ganhar medalha de prata numa competição em São Paulo que selecionou os atletas para o mundial. “Para se classificar para torneios em outros países eles fazem seletivas nacionais, foi quando o Juninho se classificou. São selecionados três atletas de cada categoria em duas seletivas aqui no Brasil”, disse Iaroslav.
Porém Juninho não sabe se conseguirá ir a Abu Dhabi. “Quando participo de competições em São Paulo e outras cidades quem me ajuda é o meu avô. Mas sair do país é muito caro então acho difícil conseguir ir para Abu Dhabi”, disse o garoto. “Uma viagem dessa vai custar uns R$ 6 mil só a parte do lutador, sem contar que ele é muito novo e não poderia ir sozinho”, disse o professor.
Iaroslav comenta ainda que lutadores precisam de patrocínio para custear as despesas básicas que têm com roupas, artefatos e viagens. “O maior problema hoje que impede o lutador de deslanchar são as condições financeiras. Aqui em Franca não temos muitos interessados em patrocinar os atletas”, disse.
Outro país
O faixa azul Vinícius Ferreira Gazola, de 16 anos, é outra promessa para o jiu-jitsu francano. O rapaz luta há cerca de três anos e meio e já acumula 133 medalhas e troféus. “Já ganhei um mundial da CBJJE (Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Esportivo), um brasileiro, um paulista, um pan-americano, e também fui selecionado para Abu Dhabi”, conta o atleta.
O lutador, que também estuda e é vendedor, estampa no quimono o nome das duas empresas que o patrocina: Red Nose e Açaizeiros. “Eles me ajudam por campeonato. A Red Nose vai pagar minha passagem para o campeonato que vou participar nos Estados Unidos, em maio. Mas para Abu Dhabi acho que não vou pois é bem caro e não consegui auxílio ainda”, disse Vinícius.
O estampador Carlos Henrique dos Santos, de 23 anos, apesar de treinar apenas nas horas vagas, consegue praticar o jiu-jitsu cerca de sete horas por semana. “Eu e o Vinícius não vivemos só do jiu-jitsu. Nós treinamos só depois do trabalho e muitas vezes já estamos cansados”, disse. O rapaz também luta faz três anos e meio, mas ao contrário do colega de tatame Vinícius, Carlos Henrique não tem auxílio na hora de viajar para participar de competições. “Para esse campeonato que o Vinícius vai nos Estados Unidos não vou porque não tenho dinheiro”, disse Carlos, que também é faixa azul mas, pela idade, já pode lutar na categoria profissional. “Fui campeão brasileiro da CBJJE e campeão paulista no ano passado e tenho diversos títulos regionais”, conta o estampador.
Estilo de vida
“Nós lutadores temos que nos manter saudáveis e longe de coisas que possam nos fazer mal como bebida e cigarro”, afirma Carlos, que ainda comenta que jiu-jitsu exige muita disciplina do lutador. “Nos tornamos mais maduros, concentrados e focados em nossos objetivos. Para mim, lutar se tornou um estilo de vida”, completa.
As modificações não são percebidas somente por Carlos, a mãe de Júnior, a operadora de caixa Lanis Medeiros Silva também notou e aprovou a evolução do garoto depois que ele começou a lutar. “Juninho está mais organizado, pontual e responsável. A professora dele disse que também estava percebendo ele mais maduro.” O avô do garoto, Geraldo Pereira Toledo, concorda. “Ele virou um orgulho pra gente.”
Vinícius Gazola também passou por mudanças depois que começou a praticar jiu-jitsu. “Ele era gordinho quando chegou na academia. Sofria bullying e teve até que mudar de escola”, disse Edson Ferreira Júnior, professor de jiu-jitsu de Vinícius e Carlos.
Saúde
Edson ainda completa dizendo que não existe um biotipo específico para lutar jiu-jitsu. “Esse é um esporte democrático, todos conseguem lutar.” O professor disse ainda que o principal objetivo do jiu-jitsu é trazer saúde e bem estar para as pessoas. “Tenho muitos alunos que são advogados, médicos e que buscam a luta para desestressar e ter uma vida mais saudável.”
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