A reserva ecológica


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Para Solange Borini
 
Por volta dos dez anos de idade, fui desenvolvendo uma ideia que me custou alguns sacrifícios (e equivocados sofrimentos), mas, de qualquer forma, engendraram ricas experiências.
 
A ideia forte era a de que eu, mais do que aceitasse, tinha como obrigação aprender a conviver com pessoas diferentes de mim, em relação a tudo: criação familiar, religião, posição social, histórias de vida, filosofias de vida (ética, estética, arte). Mesmo em situações comezinhas, aprender a gostar de comidas, bebidas, ou de modos de vestir ou cortar o cabelo, que contrariassem o que, sensorialmente, me era familiar, agradável, meu. 
 
Nunca foi fácil colocar em prática a ideia, mas a recompensa era o alargamento do meu mundinho; era o filosofar empírico: eu me espantava com a variada exibição dos estilos de viver - e de sobreviver - das pessoas. 
 
Assim, talvez, tenha sedimentado o gosto por viajar e pela futura vocação: o ofício de psicanalista. Há invariantes nos seres humanos, mas também um manancial de hábitos, manias e trejeitos singulares. Há toda uma complexa história, um fausto arranjo sensacional naquilo que imediatamente atrai ou repele alguma pessoa. O que torna alguém fascinado, sexualmente, sua fantasia ou obsessão, é tecido em um patchwork de vivências que vão se entretecendo, consciente e inconscientemente, em uma padronagem única e idiossincrática. A composição pode parecer semelhante na comparação de um humano com outro. Mas os detalhes de cada recorte do patchwork pessoal têm formas e cores que comparecem em um e não no outro, etc..
 
Uma particular cena vivida desvelada é capaz de revelar a complexidade do caráter de uma pessoa, mais do que uma narrativa de vida inteira. 
 
Tenho uma reserva de alma, ecológica, e lá me recolho, depois de me aventurar fora dela. Vejo, sinto, ouço o mundão, e, no entanto, sempre existiu um cantão ecológico, e só agora o sei. 
 
Trafeguei por religiões, ideologias, entre classes socioeconômicas distintas. Costumava ir ao aeroporto ou à rodoviária, quando morava em São Paulo, para admirar os tipos humanos - um hobby - a contemplar os passantes, a humanidade em desfile.
 
Depois de tantas décadas, descobri que ficar na minha reserva ecológica, desfrutá-la com quem é comigo afim, somente acontece quando estou alegre: espiritualmente alegre. Em paz, quieta, surda e mudamente alegre.
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)

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