Em uma deslumbrante chácara vivia um pequeno cãozinho, de nome Nicholas. Era tratado com todo ‘mimo’ pelos seus donos.
Alimentava-se com ração de marca, fornecida em porções generosas, água fresca, banhos semanais em pet shop, casinha para dormir e ossinho para roer. Vivia, portanto, vida de rei.
Sem raça definida, era o que se costuma chamar de ‘vira lata’, mas tinha porte atlético, era dócil e formoso.
Nicholas, no entanto, tinha o mau vezo de marcar território. Fazia xixi por todos os cantos e isso incomodava seu dono.
Acabou trancafiado em pequeno canil e ali vivia a maior parte do seu tempo. Fechado, ficou sem a liberdade. Sim, cachorros são parentes de feras acostumadas a lutar pela sobrevivência, a conviver com as vicissitudes do inverno. A liberdade faz parte do seu DNA.
Certo dia o caseiro, inadvertidamente, deixou abertas as portas do canil e da chácara. Nicholas fugiu para lugar incerto e não sabido.
Não voltou mais. A família, desesperada, fez tudo o que era possível para encontrá-lo. Postou fotos em redes sociais, colocou anúncios em rádios e jornais, mas, tudo em vão. Nicholas nunca mais foi encontrado. Possivelmente, tornou-se cão de rua, comendo restos do que encontra, quando encontra.
Seu ato transloucado — na visão de alguns — pode até ter lhe custado a vida. Mas, ‘o que vale a vida sem a liberdade?’.
Animais, quando livres, exercitam intensamente a liberdade, ao contrário dos homens.
Esses podem exercer o direito de ir e vir, porém, são reféns de seus pensamentos, ansiedades, de seus medos, da vaidade, da soberba, dos preconceitos, da inveja e, especialmente, das preocupações. Assim, alguns, têm aparente liberdade.
Racionalmente, Nicholas não fez uma boa escolha. Porém, não poemos nos esquecer de que cães, embora fiéis, não são racionais. Seguem, apenas, seu instinto e seu coração.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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